30 agosto 2006

Sandokai - 6º Comentário de Deshimaru

Do: não há nem Norte nem Sul no Caminho
Entre seres humanos, há sábios e tolos,
Mas no caminho não há patriarcas do sul ou do norte.
A inteligência de cada ser humano varia, mas, no caminho, todos os seres são idênticos. As fronteiras, as distâncias, os afastamentos do Sul e do Norte são abolidos.
Porque o Sul e o Norte?
Na China, da mesma forma que na Europa e na França, o Sul e o Norte diferem. A grande superfície da China cria fortes características próprias do Norte e do Sul, que se refletem na personalidade das populações. Os povos do Norte e do Sul se combatiam sem cessar, ambicionando, uns e outros, a supremacia do poder.
Porque Mestre Sekito escreveu esta frase?
Depois da morte de Konin, os dois grandes discípulos, Eno e Jinshu, se separaram.
Jinshu era um homem inteligente, sensível, muito hábil. Eno, de má aparência, era iletrado. E, no entanto, foi Eno quem recebeu a sucessão de Mestre Konin. O Zen, então, se dividiu em duas escolas: ao Norte, Jinshu, ao Sul, Eno.
Esses versos formam a introdução do Sandokai. Os versos seguintes desenvolvem a relação de Buda e do ego, a fusão de Buda e da própria personalidade.

22 agosto 2006

Sandokai - 5º Comentário de Deshimaru

Um dia, um monge feriu seu pé no caminho. Sua unha foi arrancada e a dor era muito forte. “Ai! Ai! De onde vem esta dor?”. E voltou ao templo de onde havia partido. Um outro monge lhe perguntou: “Porque tu voltaste? Porque tu regressas? Renunciaste à tua viagem?” Ele respondeu: “Bodhidharma não veio do Leste, Eka não se foi ao Oeste, e eu estou contente...”
Tudo é semelhante. O cosmo inteiro é desprovido de fronteiras e nacionalidades. Bodhidharma mora no cosmo e não é preciso distinguir o Sul e o Norte. O espírito tem a natureza do Buda, sem começo nem fim, ilimitado.
Se compreendemos conscientemente a natureza do Buda, há dualidade. Se os Budas tornam-se Budas, eles não podem ter a sensação de ser Buda. Quando nos tornamos objetivamente Buda, não podemos senti-lo. A natureza do espírito de Buda apenas se realiza quando nós o esquecemos. Neste instante preciso, somos autenticamente Buda. Os seres que se esquecem que são Budas são superiores àqueles que têm uma convicção pessoal. É por isso que digo sempre: mushotoku, sem finalidade... mas Hishiryo, além do pensamento e do não-pensamento.
A galinha e o ovo são diferentes. A galinha não está no ovo e o ovo não é a galinha. Mas, ao final, o ovo se transforma em pinto. A galinha, com seu bico, bate na casca do ovo e, simultaneamente, de dentro, o pinto lhe responde. A mãe bate, o pequeno responde, a casca se quebra e o pinto vê o dia. O pinto não sabe nada de ovo e o ovo não tem consciência do pinto. No entanto, houve uma mudança, um pinto nasceu.
A fé entre discípulo e o Mestre é fundamental. O Mestre observa seu discípulo do alto da cabeça até a ponta dos dedos do pé, passando até pelo ânus! De seu lado, o discípulo compreende tudo do Mestre: é a verdadeira fé. De Buda a Buda. I shin den shin.

16 agosto 2006

Sandokai - 4º Comentário de Suzuki

Se você praticar o zazen dessa maneira, é menos provável que você experimente dificuldades quando estiver desfrutando algum evento. Compreende? Você pode ter uma experiência e dizer, “É isso aí! Isto é como as coisas devem ser!” Se alguém discordar de você, você fica aborrecido(a). “Isto deveria ser desta maneira, e não daquela. O Centro Zen deveria ser deste jeito”. Talvez. Mas nem sempre. Se as coisas mudarem, nós perdermos o centro de Tassajara, e nos mudarmos para uma outra montanha, o jeito das coisas que temos aqui não será o mesmo que teremos lá. Assim, sem nos agarrarmos a algum jeito especial, abrimos nossas mentes para observar as coisas-como-é, e aceitar as coisas-como-é. Sem esta base, quando você disser, “esta é a montanha”, “este é meu amigo”, “esta é a lua”, a montanha não será a montanha, meu amigo não será meu amigo, e a lua não será a própria lua. Esta é a diferença entre agarrar-se a algo e o caminho de Buda.

O caminho de Buda é o estudo e o ensinamento da natureza humana, incluindo o quanto estúpidos somos, que tipos de desejos temos, nossas preferências e tendências. Sem nos agarrar a algo, tento lembrar-me da expressão “propenso a”. Somos propensos ou temos uma tendência de fazer algo. Este é o meu lema.

Quando eu estava preparando esta palestra, alguém perguntou-me, “O que é auto-respeito e como podemos adquiri-lo?” Auto-respeito não é algo que você sinta que tem. Quando você sente, “Eu tenho auto-respeito”, isto não é mais auto-respeito. Quando você é apenas você, sem pensar ou tentar dizer alguma coisa em especial, apenas dizendo que você está na sua e como você sente, o auto-respeito existe naturalmente. Quando estou estreitamente relacionado a todos vocês e a todas as coisas, então sou parte de um grande ser inteiro. Quando sinto algo, sou quase uma parte dele, mas não o bastante. Quando você faz uma coisa sem ter o sentimento de ter feito uma coisa, então é você, você mesmo. Você é completamente com todo o mundo e não se sente auto-consciente. Isto é auto-respeito.
Para termos esta prática quotidiana, estudamos muito. Quando alcançamos este lugar, não há nenhuma necessidade de dizer “um ser inteiro” ou “pássaro” ou “muitas coisas que incluem um ser inteiro”. Poderia ser apenas um pássaro ou uma montanha ou o Sandokai. Se você compreender isto, não haverá necessidade de recitar o Sandokai. Embora o recitemos numa forma sino-japonesa, não se trata de japonês ou chinês. É apenas um poema, ou um pássaro, e esta é apenas a minha palestra. Dizemos que o Zen não é algo sobre o qual falar. É o que você experimenta de uma maneira verdadeira. É difícil. Mas de qualquer modo, este é um mundo difícil, não se preocupe. Pode ser muito melhor ter esses problemas de prática do que outros tipos de problemas embaralhados.

11 agosto 2006

Sandokai - 4º Comentário de Deshimaru

O espírito do grande sábio da Índia transmitiu-se
Intimamente, diretamente, secretamente,
Do Leste para o Oeste.

(continuação)

Intimamente, diretamente, secretamente (mitsu). Nem mesmo a espessura de um fio de cabelo entre o discípulo e o Mestre. Unidade completamente acabada. Sem se olharem, a face do Mestre e a do discípulo são apenas uma. Os outros não podem compreender. Só eles dois compreendem. O verdadeiro amor existe sem dualidade. Cada um de nós possui este espírito antes de nascermos e continua durante nossa vida. É ku, e Buda, Bodhidharma, os Mestres da transmissão, como Eka, Eno, Yakusan, Sekito, realizaram-no.
De onde vem? De todas as partes. Não se pode compreender a fonte original.

02 agosto 2006

Sandokai - 3º Comentário de Suzuki

Quando eu digo ver coisas-como-é, quero dizer praticar com firmeza com nossos desejos – não livrar-nos dos desejos, mas levá-los em conta. Se você tiver um computador, você deve entrar com todos os dados: este tanto de desejo, este tanto de comida, este tipo de cor, este tanto de peso. Nós devemos incluir nossos desejos como um dos muitos fatores para a ver as coisas-como-é. Nem sempre refletimos sobre nossos desejos. Sem parar para refletir sobre nosso julgamento egoísta, dizemos “Ele é bom” ou “Ele é mau”. Mas alguém que é mau para mim, não é necessariamente sempre mau. Para outro alguém, pode ser uma boa pessoa. Ao refletir desta maneira, podemos ver as coisas-como-é. Isto é mente buda.
O poema começa com Chikudo daisen no shin, que significa “a mente do grande sábio da Índia”. Essa é a grande mente de Buda que tudo inclui. A mente que possuímos quando praticamos zazen é a grande mente: não tentamos ver nada. Paramos com o pensamento conceitual, paramos a atividade emocional, simplesmente sentamos. É como algo acontecendo no grande céu. Qualquer que seja o tipo de pássaro que nele voa, o céu não liga. Essa é a mente transmitida do Buda para nós. Muitas coisas acontecem quando você senta. Você pode ouvir o som de um córrego, pode pensar em algo, mas sua mente não liga. Sua grande mente está ali simplesmente sentando. Mesmo quando você não está se dando conta do que está vendo, ouvindo ou pensando, algo está acontecendo na sua grande mente. Observamos coisas. Sem dizer “bom” ou “mau”, simplesmente sentamos. Apreciamos as coisas mas não temos nenhum apego a elas. Nós as apreciamos completamente nesta ocasião, é tudo. Depois do zazen, dizemos, “Oh, bom-dia!” Desse modo, as coisas, uma após a outra, acontecerão para nós e seremos capazes de apreciá-las plenamente. Essa é a mente transmitida de Buda. E essa é a maneira que praticamos zazen.