25 maio 2010

Fragmento de um Teisho de Kodo Sawaki Roshi

..................................
Há muito tempo atrás, eu viajava de trem pela região de Kansai. Lembro-me que lia um artigo no jornal local sobre a grande quantidade de sardinhas pescadas no mar de Isu e o que era feito delas. Havia uma foto de uma praia coberta de sardinhas.

As sardinhas são consideradas um peixe muito ordinário porque há grandes quantidades delas em nossos mares. Se elas fossem pescadas apenas uma vez por ano, estou certo de que elas seriam consideradas uma grande iguaria. As trutas, por outro lado, são consideradas um luxo por serem muito raras.

Uma vez juntei-me a alguns pescadores no rio Tamagawa e não vi nenhuma truta pendurada em seus anzóis. As sardinhas nadam em cardumes e com um lançar da rede, voce pode pegar um monte delas. Elas são transportadas por caminhões, salgadas, secas e enlatadas. As sardinhas que sobram são usadas como fertilizantes. Nós não temos muita consideração com esses peixes, mas eles são realmente muito saborosos. De fato, elas seriam consideradas muito melhores se elas fossem mais raras.

Bom e mau são conceitos relativos que não existem realmente. O mesmo pode ser dito sobre verdades e ilusões. O bom não poderia existir sem o mau. É simplesmente o karma do homem que gera o dualismo e determina o que é bom e o que é mau.
...............................
Há mal dentro do bem e há bem dentro do mal. Bem e mal em si mesmos não existem realmente. O comentário de Shinran é evidente:

Não se deve encontrar virtude na glória, nem temer o mal.
Cada homem e todos os homens não são nem bons nem maus.

23 maio 2010

Fukanzazengi - 2º comentário de Coupey (1ª parte)


O Caminho é fundamentalmente perfeito. Ele tudo penetra. Como poderia depender da prática e da realização? O veículo do Dharma é livre e desimpedido de qualquer obstáculo. Em que o esforço humano concentrado se faz necessário?

Aqui o Mestre Dogen coloca uma questão essencial: já que o Caminho é fundamentalmente perfeito e que tudo penetra, porque seria necessário praticar?

Mestre Dogen certamente conhecia o mondo que teve lugar entre o Mestre Eno e um monge nos anos 700 na China. O monge pergunta a Eno:

- Hoje em dia, todos os mestres chan dizem que se alguém deseja realizar o Caminho, deve praticar dhyāna (isto é, zazen) e samādhi. Estais de acordo?

- O Caminho depende do despertar do espírito. Como poderia depender do zazen?, responde Eno.

O Caminho, nos diz Dogen, não depende nem da prática nem do satori de Buda ou dos outros mestres. Não se escuta isto frequentemente nas diferentes escolas budistas, na realidade, escuta-se mais o contrário... Por outro lado, reencontra-se essa maneira de se expressar – ‘não temos necessidade de praticar para obter o despertar’ – entre os eruditos e os especialistas do budismo. Para eles, não teríamos necessidade de praticar porque já estamos despertos. Pode-se assim constatar, quando se toma um livro traduzido por um erudito, e certamente com eficácia, que ele dedica frequentemente seu livro não ao seu mestre, porque ele não tem, mas a Eno, o sexto patriarca. Por quê? Precisamente porque Eno afirma que o despertar não depende do zazen.

As pessoas impressionadas por essa resposta tomam-na imediatamente, e essa interpretação acomoda-as e lhes permite não mover suas nádegas... É verdade que a longo prazo a prática nem sempre é fácil, sobretudo quando se realiza que é preciso praticar com os outros – o que fizeram em toda sua vida o Mestre Deshimaru e o Xaquiamuni Buda, para citar apenas esses. Mas seria necessário tentar compreender profundamente o que Eno e Dogen queriam dizer. Pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida sobre a absoluta necessidade da prática do sentar-se diante de uma parede, sem finalidade, sem objeto. E, se o Caminho não depende nem da prática nem do satori, é que, para mim, o Caminho já existe em nós mesmos. Não nos outros. Não em outro lugar. Aquilo que Dogen e Eno querem dizer é: porque seria necessário acrescentar o que quer que seja a nós mesmos, ao nosso ego? O Caminha tudo penetra, logo não há nenhuma necessidade de procurar o satori.

Mestre Dogen, ainda um simples praticante no templo Tendai no Monte Hiei, tinha suas dúvidas. Ele era muito jovem e seguia o Mestre Koin, abade de um templo Tendai. Naquela época ele não pensava, como escreveria mais tarde, que “o Caminho é fundamentalmente perfeito” e que “ele tudo penetra”. Ele pensava a partir do espírito mais comum – o espírito daquele que se engaja na prática pela primeira vez (sotapanna – “aquele que entrou na corrente”).

Um dia, Dogen perguntou ao abade:

- Já que os sutras dizem que todos os seres humanos têm a natureza Buda, porque é preciso praticar esse zazen tão difícil? Já que todos têm essa natureza, porque há necessidade de realizá-la, de atingir o satori?

O abade nada disse, não sabendo o que responder. Talvez não tivesse nada a dizer. Dogen ficou muito decepcionado com seu silêncio. Algum tempo depois, o abade lhe disse:

- Dogen, é preciso que vás ver o mestre rinzai Eisai, ele é mais dotado do que eu, ele poderá te responder.

Dogen então partiu ao encontro de Eisai, com a única intenção de lhe colocar a questão. Ao fim de uma árdua viagem, ele encontra Eisai e lhe pergunta:

- Porque praticar já que todos têm, desde o início, a natureza de Buda?

E Eisai lhe responde:

- Entre todos os budas, nos três mundos (passado, presente e futuro), nenhum sabe que tem a natureza buda. Mas os gatos e as vacas sabem muito bem.

03 maio 2010

Fukanzazengi - 1º comentário de Coupey

O Caminho é fundamentalmente perfeito. Ele tudo penetra.

O Caminho tudo penetra porque está por toda a parte: o Dharma está por toda a parte – o Caminho, o Dharma, é a mesma coisa. Poder-se-ia dizer igualmente: “a natureza de buda está por toda a parte”: sob os pés de um mestre zen, sob os pés de um assassino, a despeito de toda razão humana. Mesmo o pior dos assassinos não está privado de Dharma. Eis o grande Caminho, largo, generoso, nem difícil nem fácil, sem medida. Uma frase retirada de um poema de Wanshi ecoa essa ideia, eu dela me sirvo às vezes como um mantra: “Todo o universo cintila e prega o Dharma”.