28 dezembro 2011

Buraco negro


Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
Paulo Leminski (1944-1989)

Fukanzazengi - 49º comentário de Coupey

Tivestes a sorte única de tomar a forma humana, não percais vosso tempo. Trazei vossa contribuição à obra essencial do Caminho do Buda. Quem teria um vão prazer à chama jorrada do sílex?
É difícil nascer sob a forma  humana, mas cada um de nós mesmos nasceu humano. É difícil ouvir a verdade, mas nós a ouvimos. É difícil praticar o Caminho correto, mas no dojo nós o praticamos. Então todos os que praticamos o zazen (ou quase todos) sabemos agora como não perder nosso tempo, como não perder o momento presente. Entretanto, se temos a tendência de perder nosso tempo na vida quotidiana, não é muito difícil que continuemos a perdê-lo no dojo... Se passamos o tempo todo, por exemplo, a assistir partidas de futebol ou corridas de carros na televisão, a jogar cartas, ir sempre ao cinema, a discutir sempre, a tagarelar sobre não importa o que e não importa quando, como não fazer a mesma coisa no dojo? Como não chegar ali e estacionar nosso corpo, como estacionamos um automóvel no estacionamento, e sair para algum outro lugar tagarelando com nós mesmos ou ruidosamente?

No começo da prática, aprendemos rapidamente o que é o Caminho no dojo. Depois, natural e inconscientemente, chegamos ao Caminho fora do dojo. Mas, em seguida, se não prestarmos atenção, não conseguiremos trazê-lo de volta para o dojo, pois nos deixaremos ser pegos nas armadilhas por todos os fenômenos do mundo social. E, mesmo após vinte anos de prática, não sabemos mais o que fazemos e porque lá estamos. Então é preciso prestar atenção sempre, quer estejamos praticando há um mês, quer sejamos um monge de cem anos.
Um leigo queria obter uma caligrafia do célebre monge Ikkyu. Ele então escreveu em kanji: "Atenção!" O homem não ficou nada impressionado: "Isto não é muito profundo... Vc não teria uma outra coisa para escrever?" Ikkyu escreveu então: "Atenção. Atenção!" O homem nada compreendeu, ele queria qualquer coisa ainda melhor, certamente ele estava pronto para aplicar-lhe um golpe... Então Ikkyu escreveu: "Atenção. Atenção. Atenção!"
 "Atenção" em japonês é composto por dois kanji, um quer dizer presente, o outro, mente. Mente presente. É isto a urgência. É isto não perder seu tempo.

Não basta que venhamos simplesmente nos sentar em zazen. É preciso estar aqui e agora. É preciso que o momento presente esteja arrematado, completo. Como o ruído de um estalar de dedos. Tlec! O tempo torna-se eternidade, não nascido, não morrido. Isto é o satori, natural, automatica e inconscientemente.

"Não percais vosso tempo", é também: não pratiqueis um zazen confortável, não procureis apaziguar o que quer que seja, não procureis acalmar vossa mente, vossos problemas psicológicos. Os iniciantes não têm esse tipo de preocupação, mas em seguida nos metemos a buscar o conforto da postura e da prática. Procuramos uma espiritualidade confortável. Isso é uma perda total de tempo. Não é preciso parar. Quando paramos, eis que adormecemos... e acabamos por recuar, ainda que pratiquemos zazen todos os dias durante cem anos.

Um dia, um praticante veio me dizer que o zazen era bom para "apaziguar seu karma". Isto é falso. Para começar, zazen não é bom para nada. Pensar que o zazen pode servir para alguma coisa é um enorme absurdo e é não compreender nada do que fazemos. Além disso, zazen não apazigua absolutamente nada - além do mais não apaziguamos o karma, nós o cortamos (ainda mais, pois não é o zazen que o corta). Aquele que pratica não se encontra de maneira alguma apaziguado, ao contrário, ele se encontra assediado pela prática, pelo Caminho, mas comparece ao dojo. Colocamo-nos em questão, colocamos nossas ideias em questão, vemos que nossos pensamentos não são tão profundos, vemos nossas ilusões, nossos erros, mas não há apaziguamento. E mesmo assim, comparecemos ao dojo.

Todos, ou quase todos, nos mostramos preocupados como grilos, como cigarras. Tem uma iamgem retirada do Eiheikoroku que quer dizer: tagarelar, perder seu tempo, correndo atrás de dinheiro, do trabalho, por exemplo, choramingando porque não ganhamos tanto,  ou procurando constantemente distrações para passar o tempo, cinema, televisão, praia, palavras cruzadas, jogo, ping-pong, caça etc. É o pior das coisas para quem pratica, para quem carrega um kesa ou um rakusu. Se a maior parte dos homens e mulheres, durante toda a sua vida até o túmulo, passam seu tempo a se interessar de coisas fúteis, pior para eles, é assim... Mas para aquele que pratica o Caminho, que pediu e recebeu a ordenação, não há nada mais triste do que se aproximar do fim de sua sua vida sem haver podido esclarecer sua mente, limpá-la.

Está dito no Shukke Kudoku de Mestre Dogen que aqueles que vêm da região sul do monte Sumeru, isto é, nós, temos sorte por quatro razões:

1. Eles podem praticar o Caminho.
2. Eles podem ouvir o ensinamento de Buda.
3. Eles podem tornar-se monges, monjas.
4. Ele podem obter o satori.

Muitos não compreendem o sentido dessas palavras e pensam que devem praticar como loucos, por toda a parte e por todo o tempo - genmai no dojo, genmai com seus cônjuges em casa, nada de álcool, nada de sexo, nada de cigarros, nada de festas, mostrar cara feia... Mas não é nada disso. Não se trata de galopar sem relaxar atrás do que quer que seja como de uma cenoura.
 Um dos discípulos do samurai Miyamoto Musashi queria de todas as maneiras aprender a manejar a espada. Musashi lhe ensina durante três anos a cortar lenha. O discípulo furioso se põe um dia a reclamar. "De acordo, se você não quer mais cortar lenha, você pode agora caminhar pela borda do tatami. Ande, faça!" E, durante um ano, da manhã à tarde, aquele discipulo caminho pela borda do tatami. Sempre furioso, acaba por queixar com Musashi que lhe diz: "Venha ver, venha comigo". Musashi lhe conduz ao alto de uma falésia. Em cima do precipício um tronco de árvore está caído de mod a formar uma ponte entre as duas ,argens da falésia. O samurai diz a seu discípulo: Ande! Atravesse!" O discípulo tem medo. Um único pequeno erro e ele cairá no abismo. Mas eis que, nesse exato momento, um cego passa diante dele com um bastão e, batendo com sua bengala, atravessa o precipício caminhando sobre o tronco da árvore.

A prática não é a obtenção de qualquer coisa ou o fato de ir a qualquer parte. A prática é o momento presente. E é preciso saber dele nos servirmos. Não é apenas uma ideia, é o vivido.

O mestre pergunta ao discípulo:
"Então, de onde vens agora?
- Estava em Seto, responde o monge. [Seto era uma aldeia siituada muito longe].
- Certamente gastaste bastante as sandálias de palha..."
O monge permanece silencioso e o mestre constata que ele não compreende a prática. Diz-lhe, "Lamento essas sandálias. Elas foram usadas em vão".

21 dezembro 2011

Fukanzazengi - 48º Comentário de Coupey

Um só passo em falso e vos afastais do reto Caminho traçado à vossa frente.
"Um só passo em falso": ou é um passo em falso ou não é. Não há "quase". Um só passo em falso e não estaremos mais no momento presente. Um única gota de tinta num copo d'água escurece toda a água. Uma pequena noção de certo ou errado em nossa mente e a confusão está criada. Não há mais o reto Caminho traçado à nossa frente. Certo e errado estão muito próximos um do outro. E o inferno não está nem um pouco longe do paraíso. Como dizemos sempre, não é preciso escolher nem rejeitar. Rejeitar ou correr atrás é seguir os galhos. Não há necessidade de nos preocuparmos com os galhos. Devemos ir diretamente à raiz, devemos ir diretamente ao espírito do Caminho - qualquer outra coisa é secundária.

08 dezembro 2011

Flor do quiabo

Sol de meio dia —
Levemente inclinada
a flor de quiabo.
                                                 (Teruko Oda)

07 dezembro 2011

Fukanzazengi - 47º Comentário de Coupey


Não existe qualquer razão para deixarmos nosso assento de meditação e fazermos fúteis viagens a outros países para buscarmos isto.

Este trecho faz alusão à parábola do filho perdido descrita no Sutra do Lótus. Todo budista ou, ao menos, toda pessoa que se interessa pelo budismo, conhece essa história do filho que abandona seu lar, o palácio de seu pai, para tornar-se um vagabundo. Existem muitas maneiras de recontá-la. 
O filho de um rei se perde durante a guerra e se encontra no pais inimigo. Depois de um longo lapso de tempo, esse filho perdido, que se tornou mendigo, encontra-se, por acaso, em seu país natal, coisa que ele ignora. Um dia, o rei o vê, e crê reconhecê-lo como sendo o filho desaparecido. Mas quando dele se aproxima, o mendigo tem medo e foge. Numerosas buscas são realizadas para encontrar aquele filho. Finalmente, o pai se serve de todos os meios para seduzi-lo. Por exemplo, ele se fantasia de mendigo e, progressivamente, consegue dele se aproximar sem que ele o tema. O filho nunca sabe de nada. Depois o rei o leva a comer e, logo em seguida, o convida para um café, depois ao restaurante, depois ao hotel George V... e, finalmente, ao palácio. (A história no sutra mostra até como era preciso ir lentamente para não assustar o filho). E, quando este fica pronto, o pai lhe revela finalmente a verdade sobre a sua identidade. Então o filho se torna príncipe e, depois, rei.
No Sutra do Lótus, essa parábola se chama "A parábola do discernimento da fé". É a história  de um homem perdido na dúvida e que pensa que nada é bom a não ser mendigar. Ela nos fala da ilusão e ignorância nas quais estamos todos mergulhados, poderíamos dizer, desde nosso nascimento. Ela descreve o sofrimento da vida e da morte que carregamos durante toda nossa existência. É a história de nossos tormentos, nossos apégos, nossa recusa em levantar a cabeça e de olhar à nossa frente, de tomar nossas responsabilidades, assumi-las e não mais nos considerarmos como vítimas. Eis como o Mestre Deshimaru, mais ou menos, contava essa parábola: 

Emissários do rei dizem, um dia, ao filho perdido que se tornara mendigo:

"Você deve voltar para a casa de seu pai, você é filho de um homem rico". Mas o filho neles não crê. E eis que um dia, vem a mendigar no palácio de seu pai. Este, que o havia visto chegar, lhe oferece uma boa quantidade de comida. [Mestre Deshimaru não diz uma boa comida, mas uma boa quantidade...]. Na manhã seguinte, o mendigo retorna e lhe dão comida de novo. Ele compreende que ali encontrou uma boa casa... E, pouco a pouco, ele se encontra dentro da cozinha. Depois, ao fim de algum tempo, ele acha que poderia, talvez, tornar-se cozinheiro e, então, poderia comer à vontade e, quem sabe um dia, tornar-se intendente...

Então eis que aquele vagabundo vai lentamente subindo nas suas funções. No começo, ele toma gosto em comer os restos nos pratos do rei (seu pai!). Depois ele se diz, "Que sorte agora posso eu mesmo ir me servir na despensa qundo ninguém me observa!". E eis que um dia lhe dizem que não deve mais comer em pé mas que ele pode sentar-se numa sala confortável, e até mesmo ser tornar-se responsável...

A narração do Mestre Deshimaru é muito curta. Rapidamente ele chega ao final da história contando simplesmente que o filho acaba por acreditar no pai quando ele lhe diz, "Você é meu filho e eu vou lhe entregar esta rica casa". No começo, eu não gostava nada dessa história porque tinha a impressão que ela tratava de uma questão psicológica. Um homem perdido na vida, perdido na sua cabeça, que se considera inferior ao que é e que, finalmente, se dá conta de que é o filho do Buda. Eu não ficava nada impressionado. Mas agora que posso compreendê-la através das imagens do Mestre Deshimaru, eu me farto! E sua grande imaginação, como a sua própria compreensão, me fizeram me dar conta ainda mais profundamente de seu significado.

O Sutra do Lótus é um sutra mahayana e essa parábola do filho perdido descreve também o caminho que podemos tomar indo do budismo hinayana, Pequeno Veículo por si mesmo, ao budismo mahayana, Grande Veículo, por nada, mushotoku. Com efeito, a maior parte das pessoas praticam unicamente para elas mesmas. Na vida social é a mesma coisa: trabalha-se para seu ganho pessoal a vida inteira até a morte, e desde que se é pequeno. E um mendigo não é diferente. Igual para o filho de um rei, igual para um rei. Do mesmo modo, o hinaynista se desenvolve por si mesmo, passo a passo, se alimentando como faz o filho mendigo do homem rico. Além disso, está dito nesse sutra que "se entrares no caminho do Hinayana, avançarás passo a passo, durante 86.410 passos". Nessa velocidade, é difícil tornar-se um homem rico...

Assim, nessa parábola, vemos o filho mendigo se arrastar em diferentes lugares em busca de alimento. Recusando-se a ver que já possui o tesouro da casa do rei, a natureza de buda, ele lambe com felicidade as migalhas de seu pai, depois logo só pensa em tornar-se cozinheiro ou intendente, tudo isso seguramente para si mesmo. E é apenas ao final de uma grande viagem no tempo que ele vai finalmente reconhecer sua verdadeira riqueza, sua verdadeira natureza de filho de rei, não de um rei qualquer, mas do rei Buda Xáquiamuni, o rei que não trabalha para si próprio, mas para nada, isto é, para todo ser humano.

Eis, pois, as conclusões que podemos tirar dessa história. Para começar, não abandonemos o tesouro do verdadeiro pai. Depois, aqui e agora devemos nos tornar buda. Enfim, e simplesmente, não devemos patinar e arrastar-nos em lugares estúpidos. Como diz Dogen, "Para aqueles que ficam pastando mato à beira da estrada, é muito difícil de chegar ao verdadeiro Caminho".

27 novembro 2011

Chapéu da Noite










Porque o chapéu da noite
voa com tantos buracos?
Pablo Neruda (1904-1973)

Fukanzazengi - 46º Comentário de Coupey

Ainda que digam que há tantas almas quanto homens, todos negociam o Caminho da mesma maneira, praticando zazen.

Esta é a tradução do Mestre Deshimaru. [A que usamos diz, "Devemos pois, nos devotar completa e exclusivamente, isto é, estarmos completamente absortos na prática do zazen"]. Eis a do Mestre Gudô Nishijima: "Ainda que hajam miríades de distinções e milhões de diferenças, devemos simplesmente praticar zazen e buscar a verdade". Vejam uma outra forma de dizer a mesma coisa, "Vocês podem ouvir falar das dez mil distinções ou das mil diferenças, mas o que quer que ouçam, pratiquem zazen simples e honestamente e persigam a verdade". Eu gosto muito da simplicidade dessa frase. Não se trata de filosofia. Mestre Dogen nos pede simplesmente que pratiquemos o zazen, sejamos monge (monja), leigo, deus ou demônio.

Porque zazen? Todo o Fukanzazengi explica. Porque individualmente, praticar o zazen faz examente decrescer e mudar nosso karma, inconsciente e automaticamente. Mas também para a civilização, para a sociedade, para o povo - eu penso que o Mestre Dogen sempre teve isso em mente. Pois o zazen cria uma revolução interior que assenta as bases de uma autêntica civilização.

No Shobogenzo, o Mestre Dogen dá boas razões de praticar zazen. Razões muito profundas, às vezes intelectuais, às vezes não. Mas aqui, é muito mais simples...

"O pássaro selvagem canta insconscientemente.
A flor inconsciente desabrocha.
Sobre o rochedo coberto de musgo,
Um homem continua em zazen".

21 novembro 2011

Fukanzazengi - 45º comentário de Coupey


Os Budas e patriarcas, tanto neste país, quanto na Índia e na China, todos preservaram cuidadosamente a mente de Buda e incentivaram assiduamente o treinamento Zen. Devemos pois, nos devotar completa e exclusivamente, isto é, estarmos completamente absortos na prática do zazen.

O Fukanzazengi está verdadeiramente escrito para o mundo inteiro e não dirigido para um mundo de clérigos ou monástico. Aqui neste parágrafo, quase o último, Mestre Dogen apresenta ao povo japonês e a todos os povos do mundo, e de todos os tempos, o zen soto que ele recebeu de seu mestre Nyojô na China.

Por exemplo, ele fala nessa passagem que "devemos nos devotar completa e exclusivamente...na prática do zazen". Ele não fala do fato de ter ou não alguém sido ordenado. Ele também não compara o zazen com a meditação de Buda sob a árvore de Boddhi. Ele evoca simplesmente o zazen para todo o mundo, para aqueles, diz ele, que querem estar "completamente absortos na prática do zazen". É shikantaza.

Shi quer dizer "estado de concentração"; kan, "estado de observação"; e taza, "sentar correto, justo". Shikan siginifica, pois, "concentração, observação". Mas não concentração e observação simultâneas. Frequentemente eu ressalto que os mestres zen falam da simultaneidade. Entretanto, não penso que esse seja o caso. Quando vocês estão em concentração, vocês não estão em observação, e vice-versa. Às vezes estamos concentrados em nossa postura, às vezes observamos apenas os pensamentos que nascem e morrem como ondas, sem querer  suprimi-los (pois isso é impossível, como tampouco é possível parar uma onda).

Eis o que o Mestre Nyojô disse um dia a seu discípulo Dogen: "Praticar zazen com um mestre é abandonar o corpo e a mente. É shikantaza, sem queimar incenso, sem veneração, sem recitar o nome de Amitaba, sem ler sutras".

E eis um poema do Eheikoroku:
"Reunidos para o zazen da noite, vemos a manhã chegar.
É a melhor parte enão temos vontade de dormir.
Assim podemos compreender o verdadeiro bendô, a verdadeira prática do Caminho.
Keisei, a voz do vale, chega aos meus ouvidos, a luz da lua vem aos meus olhos.
Também, a propósito do zazen, nada há a que devamos dirigir nossa atenção".

16 novembro 2011

Por que razão é este filho de Buda chamado Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo

Nessa altura, o Bodhisattva Intenção Inesgotável 
colocou a questão em verso:

Honrado Pelo Mundo,
dotado de maravilhosas características,
pergunto-te agora uma outra vez,
por que razão é este filho de Buda chamado
Bodhisattva Contemplador dos Sons do Mundo?

O Honrado Pelo Mundo, dotado de maravilhosas características, respondeu também em verso ao Bodhisattva Intenção Inesgotável:

Escuta as ações do Contemplador dos Sons do Mundo, 
quão prontamente ele responde nas várias direções.
O seu juramento é vasto como o oceano; 
passam os kalpas mas ele 
permanece além da compreensão.
Ele serviu muitos milhares de milhões de Budas, 
afirmando o seu grande e puro voto.
Eu descrevê-lo-ei resumidamente para ti - 
ouve o seu nome, observa o seu corpo, 
conserva-o em mente, 
não deixando passar o tempo em vão, 
pois ele pode varrer as penas da existência.
Supõe que alguém concebe o desejo de te magoar 
e te empurra para um grande poço de chamas.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e o poço de chamas transformar-se-á num lago!
Se fores arrastado à deriva no vasto oceano, 
ameaçado por dragões, peixes e vários demônios, 
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo, 
e as ondas não te poderão afogar!
Supõe que estás no pico do Monte Sumeru 
e alguém te empurra.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e ficarás suspenso no ar como o sol!
Supõe que és perseguido por homens mal intencionados, 
que te querem atirar desde uma montanha de diamante.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e não poderão sequer destruir um dos teus cabelos!
Supõe que estás rodeado de bandidos impiedosos, 
cada um brandindo uma faca para te ferir.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e de imediato serão tomados de compaixão!
Supõe que tens problemas com as leis de um reino, 
enfrentas uma punição e estás prestes a perder a vida.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e a espada do executor quebrar-se-á em pedaços!
Supõe que estás preso com cangas e correntes, 
os pés e as mãos presos com grilhões e algemas.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e essas cadeias cairão, deixando-te livre!
Supõe que com pragas e ervas venenosas 
alguém tenta fazer-te mal.
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e o mal recairá sobre o seu causador.
Supõe que encontras rakshasas malignas, 
dragões venenosos e vários demônios. 
Pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e nenhum se atreverá a fazer-te mal!
Se fores cercado por feras, 
com as suas assustadoras presas e garras, 
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e elas fugirão a correr amedrontadas.
Se fores ameaçado por lagartos, 
cobras, víboras, escorpiões, 
com o seu veneno que queima como fogo, 
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e elas ao ouvirem a tua voz desaparecerão por si mesmas.
Se as nuvens trouxerem tempestade 
e caírem relâmpagos, granizo e chuvas copiosas, 
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e nesse momento as nuvens dissipar-se-ão
Se os seres viventes ficarem fatigados ou em perigo, 
abatidos por imensuráveis sofrimentos, 
o poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
pode salva-los dos sofrimentos do mundo.
Ele é dotado de poderes transcendentais 
e pratica largamente os meios expeditos da sabedoria.
Através das terras nas dez direções, 
não existe região onde ele não se manifeste.
Em muitos tipos diferentes de circunstâncias adversas, 
nos reinos do inferno, dos espíritos esfomeados ou das bestas, 
os sofrimentos do nascimento, da velhice e da morte - 
todos estes ele limpa pouco a pouco.

[Então, Intenção Inesgotável, com o coração repleto de alegria, entoou estes versos:]


Tu que possuis o olhar verdadeiro, 
o olhar puro, 
o olhar da grande e abrangente sabedoria, 
o olhar da piedade, 
o olhar da compaixão - 
constantemente te imploramos e olhamos com reverência.
A sua pura luz, livre de impureza, 
é um sol de sabedoria que dissipa todas as trevas.
Ele pode extinguir o vento e o fogo da desgraça 
e trazer em toda a parte luz ao mundo.
Os preceitos do seu corpo compassivo 
abalam-nos como a tempestade, 
a maravilha da sua mente piedosa 
é como uma grande nuvem. 
Ela faz chover o doce orvalho, 
a chuva do Dharma, 
para apagar as chamas dos desejos mundanos. 
Quando estiveres preso ou aterrorizado no meio de um exército, 
pensa no poder do Contemplador dos Sons do Mundo 
e o ódio em todas as suas formas será dissipado.
O Contemplador dos Sons do Mundo tem um som maravilhoso, 
um som puro, 
como o som de Brahma ou o som da vaga do oceano, 
superior aos sons do mundo; 
daí que se deva pensar nele constantemente, 
sem nunca dar lugar à duvida!
Contemplador dos Sons do Mundo, 
sábio puro, 
para os que sofrem, em perigo de morte, 
ele pode oferecer ajuda e conforto.
Dotado de todos os benefícios, 
ele vê os seres viventes com olhos compassivos.
O oceano de bênçãos por ele acumulado é imensurável; 
por isso se deve inclinar a cabeça perante ele!


Nessa altura o Bodhisattva Suporte da Terra (Dharanindhara) levantou-se de imediato do seu lugar, avançou e disse ao Buda, “Honrado Pelo Mundo, se existirem seres viventes que ouçam este capítulo sobre o Bodhisattva Comtemplador dos Sons do Mundo, sobre a liberdade das suas acções, sobre a sua manifestação de uma Passagem Universal e sobre os seus poderes transcendentais, deve saber-se que os benefícios ganhos por essas pessoas não serão poucos!”

Quando o Buda pregou este capítulo sobre a Passagem Universal, uma multidão de oitenta e quatro mil pessoas na assembleia conceberam a determinação de atingir o estado incomparável de anuttara-samyak-sambodhi.

14 novembro 2011

Chuva de Primavera



Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.

Guilherme de Almeida (1890-1969)

Fukanzazengi - 44º comentário de Coupey


Praticar o caminho de todo coracão é, isto mesmo, a iluminação em si. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre o zazen e a vida quotidiana.

Todos devemos praticar com uma única mente. Assim, quando nos concentramos na prática, na postura, na respiração, na mente, isso é o Caminho. Mestre Dogen, como o Mestre Deshimaru, afirmava que isso é o satori. Não temos que ir buscar em outro lugar o despertar, senão aqui e agora.  Pois não há qualquer dualidade entre zazen e satori, mas unidade. A prática é satori. Não há que se esperar o que quer que seja: já está feito.

Ainda que não haja diferença alguma entre aquele que inicia a prática e aquele que pratica há muitos anos, para esse último não existe nem mesmo separação entre a prática do zazen e a vida quotidiana. Prática e iluminação nos acompanham por toda a parte. No dojo e fora dele. Onde quer que estejamos. E progredir torna-se então uma questão de quotidianidade, não uma questão de inteligência ou estupidez. Quotidianidade aqui significa a "natureza imediata e a verdade fundamental de nossa vida de todos os dias". É genjô, ou koan da vida quotidiana, como comer, como falar, como sentar-se, como ir ao banheiro, como dormir. Nesse lugar encontra-se o despertar, a grande liberdade. E nesse lugar, não se requer inteligência alguma.


08 novembro 2011

Oceano


Buda disse:

"Os elementos se juntam e formam este corpo. Na hora da aparição, os elementos aparecem. Na hora da desaparição, os elementos desaparecem. Quando os elementos aparecem, eu não digo "eu" apareço. Quando os elementos desaparecem, eu não digo "eu" desapareço. Os momentos passados e os momentos futuros não surgem sequenciadamente. Os elementos passados e os elementos futuros não surgem alinhados. Esse é o significado do samadhi do mudra do oceano".

Cuidadosamente investigue essas palavras do Buda."
(Dogen, Samadhi do mudra do oceano. Shobogenzo)

Fukanzazengi - 43º Comentário de Coupey

Portanto, não se deve discriminar entre o inteligente e o não-inteligente.

Ser ou não inteligente, nada conta no Caminho. O significado profundo do zazen não pode ser apreendido pelo mental. Ele está além dos sentidos, além do pensamento. Todos podem praticar, mesmo um tolo. Frequentemente ouvimos as pessoas dizerem, "Ah, eu ainda não estou pronto..." Isto é um absurdo. Todo mundo está pronto. Desde o momento em que temos duas pernas e as possamos cruzar, alías não temos nem mesmo necessidade das duas pernas. Precisamos de um corpo, mas é tudo. Afinal a verdade mais elevada existe em nosso corpo, isto é, aqui e agora. Portanto não sigam o mental, sigam o corpo, seus corpos.

Na época de Buda, media-se a inteligência em função da capacidade que se tinha ou não de se lembrar das coisas e sobretudo, seguramente, das palavras de Buda, como hoje temos os sutras.
Culanpataka, um discípulo de Buda, era considerado um estúpido completo pois não conseguia se lembrar de nada, algo como nós hoje em dia... Então, um dia, Buda lhe colocou uma vassoura nas mãos e lhe disse, "Faça isto. Apenas isto!" E foi por aquela única ação de varrer que Culapantaka tornou-se um arhat.
Para praticar o caminho é preciso simplesmente se investir totalmente com o corpo no momento presente. Nossa prática, shikantaza, não tem nada a ver com a inteligência, pois ela não tem finalidade.  Portanto, não há necessidade de aprendermos uma técnica, não há necessidade de possuirmos um saber ou competências especiais. Não há necessidade de habilidade, de memória, de atitudes, de talento, de especialização, de qualificação, de graus, de shihô, não há mesmo necessidade de ordenação, não há necessidade de rakusu. Apenas um bom zafu e coragem. Muita coragem.

Não é preciso ser inteligente para se ter coragem. A coragem, por exemplo, de virmos ao dojo regularmente, ainda que ninguém ou nada nos encorajem a isso. A coragem de virmos, mesmo e sobretudo, quando estamos em dificuldade, e quase sempre estamos. O Mestre Deshimaru nos encorajava às vezes dizendo, "Se vocês praticarem zazen, vocês se tornarão grandes líderes". Eu não diria isso. Eu falaria mais do esforço, do esforço na boa direção, esforço correto, nas palavras do Buda.

Seguramente na vida social, é muito importante ser inteligente se queremos tornar-nos, por exemplo, chefe de Estado ou general.  Mas no mundo de hishiryo, pouco importa a inteligência, estamos além do pensamento. Kodo Sawaki disse um dia algo como, "É preferível ser tolo do que inteligente, pois o inteligente nada mais é que um tolo que se ignora". O tolo também pode fazer zazen sem duvidar. Isso é importante no zen soto, diferentemente do rinzai, onde a dúvida é acentuada. A dúvida até a explosão... Entre nós, a prática começa ali onde não duvidamos mais, não duvidamos do zazen. Não procuramos atingir o cume da montanha como no rinzai. E, quando nos observamos e nos esquecemos de nós mesmos, todas as dúvidas se vão. Fazer zazen sem duvidar permite que entremos rapidamente no Caminho. Enquanto que o inteligente, aquele que coloca em questão o que se faz no dojo ou fora do dojo, aquele que pesa o bem e o mal, avança muito lentamente. Frequentemente, além disso, ele avança até um nível e depois começa a recuar. Pensamentos demais.

O homem que desenvolve seu cérebro frontal está sempre construindo, mas o budismo não é uma construção. Quando em nossa mente construímos, fabricamos, edificamos, a verdade desaparece. O budismo é o contrário, tudo o que produzimos em nossa mente deve ser destruído, bonno, ilusão. E isso é possível em zazen, pela respiração, pelo sopro que expulsa tudo. E não é preciso nunca nos desencorajarmos pelo fato de que tão logo tudo é expulso, tudo retorna: é a condição humana.

23 outubro 2011

A que deverei comparar o mundo?



A que deverei
comparar o mundo?
Luz da lua, refletida
Em gotas de orvalho,
Caídas de um gerânio.
Dogen (1200-1253)


Moonlight

Fukanzazengi - 42º comentário de Coupey


Não é um princípio anterior aos conhecimentos e percepções?

O despertar ao qual Mestre Dogen aqui se refere situa-se além dos ruídos e imagens do mundo. É anterior aos conhecimentos e às análises. Não podemos apreendê-lo pelos poderes comuns. Cada um tem seus próprios ouvidos e ouve a mesma coisa de maneira diferente. O mesmo vale para os olhos. Mas tudo isso permanece sempre no mundo do ordinário, do comum. Não escutamos com os ouvidos da fé.

Pois penso que, afinal, tudo isso é uma questão de fé. Não a fé cristã ou budista, mas aquela vem de antes das religiões, antes que tenham sido ordenados monges, monjas e boddhisattvas. Seguramente existem todos os tipos de fé: a fé mona, um pouco de fé, mas não muito; a fé no mestre, mas não na prática ou, inversamente, a fé  na prática, mas não no mestre; e também a fé no ensinamento budista, a fé que vem da dúvida e, depois, aquela que vem do cosmo (essa ideia de cosmo me faz pensar no Buda quando se despertou ao ver a estrela do Norte, sua fé veio do exterior, não foi uma coisa fabricada por ele, mas também não era uma questão de Deus).

Li num jornal um desses assuntos variados que achei interessante. Um marinheiro está num cargueiro que atravessa o Pacífico e, um dia ao longo da viagem, ele cai ao mar sem que ninguém tenha visto, nem a tripulação, nem o comandante. Durante dez horas ninguém notou. Dez horas mais tarde, dão-se conta de seu desaparecimento. Alguns querem voltar, outros não. Parece impossível que o marinheiro ainda esteja vivo. Finalmente, o comandante decide dar a meia-volta. Dez horas se somam às dez horas, e eles encontram o marinheiro boiando na água, quase adormecido, mas são e salvo. Quando entrevistaram aquele homem, ele explicou que nada havia feito senão entregar-se totalmente ao momento presente. Como devemos fazer no zazen. Automaticamente, naturalmente, inconscientemente. Dessa forma, o marinheiro pode boiar, pode ser completamente um com a água do oceano.

A fé não depende da prática do zazen. Apesar disso, ela é o poder essencial, um "princípio", para empregar a linguagem de Dogen, "um princípio anterior aos conhecimentos e percepções".

Em zazen, somos como aquele marinheiro que flutuava na água, Ele está morto, e é por isso que vive. Nós também: não nos movemos, não pensamos, nossos sentidos nada fazem. E, além disso, estamos vestidos de preto..., perfeitos para nosso caixão! Zazen, é entrarmos no nosso caixão. É olharmos o mundo do ponto de vista do caixão(1). E no nosso hara. Senão, não podemos boiar. Kikai tanden, oceano da energia.
1. Esta imagem é de Kodo Sawaki.

16 outubro 2011

Queijo suiço


O que acontece com o buraco depois que acaba o queijo?
(Bertold Brecht, Um koan ocidental)

Fukanzazengi - 41º comentário de Coupey

Isso está além do que o homem ouve e vê - não é um princípio anterior aos conhecimentos e percepções?

O despertar está além do que se ouve e vê. Não pode ser compreendido através de qualquer dos seis sentidos. O sexto sentido é a mente, o cérebro frontal que dirige e controla os outros cinco, é a pequena mente que procura e serve-se dos cinco outros como ferramentas. Nós somos de tal modo dependentes de nossos sentidos, de tal modo temos os pés e punhos amarrados por nossa mente, por nossas ideias e pelas conclusões que daí tiramos, que o coração deixa de lá estar, ele fica perdido no escuro ("coração" aqui significa nossa natureza ao mesmo tempo universal e individual).

O praticante do zen compreende facilmente essa frase de Dogen. Mas ele sabe muito bem que isso não quer dizer que seja preciso rejeitar os sentidos. Rejeitar os sentidos é uma posição moralista (e às vezes ascética). Esta não é nossa prática. Para nós, não se trata de rejeitar os sentidos, mas de cortar os seis órgãos dos sentidos, bem como seus objetos de percepção. Frequentemente, falar disso causa medo. Os praticantes me confessam nos mondo que eles têm medo do ponto de vista "não humano", de não poderem confiar nos seus sentidos. Eu falo da liberdade total, não limitada pelo que vemos através de todos esses pequenos orifícios, não limitada pelo que se ouve por todos esses pequenos orifícios dos lados, e que entra nesse pequenino cérebro. Falo de nos libertarmos do pensamento frontal, de nossas ideias pessoais, que nada têm a ver com a realidade.

Como cortar os seis órgãos dos sentidos? Simplesmente através de uma expiração longa e profunda. Inconscientemente, naturalmente, automaticamente. E é a mesma coisa na vida quotidiana. Na vida quotidiana, não praticamos zazen. Apesar disso, praticamos o momento presente automatica e inconscientemente. Trata-se sobretudo de conhecermo-nos, e também de não sermos tolos. Ainda que isso provoque medo, pouco a pouco, continuando o zazen, nos liberamos desse apego aos sentidos, em notar. Não notamos nada, mas somos felizes.

Efetivamente, durante o zazen, não é difícil de fazer com que os sentidos nada façam. Num dojo, não temos necessidade dos olhos nem dos outros sentidos. "Não há olho, não há ouvido, não há nariz, não há língua", diz o Sutra do Coração que cantamos ao fim do zazen. Os olhos estão semiabertos, mas nada fazem. Os ouvidos estão à escuta e ouvem tudo, mas o que se ouve não é controlado pela mente, não se faz nada com isso. A mesma coisa para o nariz. Mas na vida quotidiana é mais difícil... Os olhos, por exemplo, vão se por a procurar uma bisnaga: são os olhos de um gaki, de um ser esfomeado.Ou os olhos vão procurar uma mulher: poderíamos dizer que se trata de olhos de um obcecado sexual. A mesma coisa para os ouvidos: eles se aprontam para escutar as conversas dos outros  - "Certamente estão falando mal de mim...". São ouvidos de um homem encolerizado, ou talvez de um espião.

Porque se diz que no zazen as orelhas devem estar no mesmo plano que os ombros, o nariz vertical e os olhos horizontais? Porque com a cabeça bem colocada no alto do corpo, a clareza da mente, a sabedoria, podem se elevar.

04 outubro 2011

O sapo e a lagoa

Bucchô, do mosteiro de Komponji, um monge de amplas leituras e profundas luzes, tornou-se o professor de Bashô. Indo ao templo de Chokeiji, em Fukagawa, perto de Edo, um dia, ele visitou o poeta, acompanhado por um homem chamado Rokusô Gohei.

Este, ao entrar no quintal da choça de Bashô, gritou:

-Como vai a lei de Buda neste jardim quieto com suas árvores e ervas?

Bashô respondeu:

- Folhas grandes são grandes, folhas pequenas são folhas pequenas.

Bucchô,então, aparecendo, disse:

- De uns tempos pra cá, qual tem sido seu empenho?

Bashô:

-A chuva em cima, a grama verde está fresca.

Então, Bucchô perguntou:

-O que é que era esta Lei de Buda, antes que a grama verde começasse a crescer?

Neste momento, ouvindo o som de um sapo que pulava na água, Bashô exclamou:

-O som do sapo saltando na água.

Bucchô ficou cheio de admiração a esta resposta, considerando-a uma evidencia do estado de iluminação atingido por Bashô. 

Deste momento, data esta microilíada zen, o mais célebre haikai, o mais lembrado poema da literatura japonesa, isto de Bashô:


Velha lagoa
 O sapo        salta
          O som da água

             (Bashô e Leminski, apud Tatiane Sousa, 2007)

Relâmpago



Admirável
aquele que ante o relâmpago
não diz: a vida foge...
                                                                                                   Basho (1644-94)

02 outubro 2011

Fukanzazengi - 40º Comentário de Coupey

Nem pode este assunto ser captado através de poderes sobrenaturais...

Nenhum poder sobrenatural permite conhecer melhor. Conhecer o que? Não apenas o despertar fornecido por um dedo, um polegar ou um hossu, mas também bodaishin: a mente do despertar, a mente que observa mujo, a impermanência do mundo.

Isso tudo quer simplesmente dizer que quando estamos sentados em zazen, nosso poder é um poder natural, não um poder sobrenatural. E através desse poder natural, podemos enxergar nossa natureza original, o que é impossível através de práticas sobrenaturais.

Mestre Nansen foi um dia à fazenda situada ao lado do mosteiro do qual era abade. Mas, na noite anterior, uma divindade especial do país da terra havia informado os camponeses de sua visita, que então prepararam uma grnade refeição para a sua chegada. Nansen ficou vivamente espantado: "Como vocês sabiam que eu viria?" "Foi a divindade da terra que nos avisou ontem à noite", explicou um dos camponeses. Nansen não era nada orgulhoso de sua prática e se dizia que ela era bem pobre para as divindades pudessem espionar o que passava por sua cabeça. Mas, na verdade, um grande mestre da transmissão, ele sabia muito bem o que havia se passado. As divindades puderam observar sua mente a partir do fato que ela ia numa direção particular e se colocava alguma coisa, no caso, sobre a refeição que teria lugar entre os camponeses, e não sobre nada. Ele não estava concentrado, mas agarrado a qualquer coisa. Nansen quando percebeu que não podia espiar sua mente, pôs-se a praticar profundamente o Caminho. E, pouco a pouco, sua mente já não se manifestava. Ele já não estava infleunciado pelos fenômenos, os shiki mentais. Pelo poder natural do zazen, Nansen tornou-se um com a sua natureza original, essa natureza que existe antes de todo primeiro pensamento, antes da criação do mundo. As divindade não puderam mais vê-lo. Nansen lhes tornou invisível.

Seguramente, os poderes sobrenaturais existem. Conhecer os acontecimentos passados ou futuros, por exemplo, é um poder sobrenatural adquirido por uma prática contínua, por um treinamento rigoroso levado a cabo dia após dia, ano após ano, "treinamento" que praticamos em nossa sangha. Através desse treinamento, frequentemente ascético, a consciência e acuidade se desenvolvem, aumentam, até o ponto em que se pode ver o que é despercebido, desconhecido. É um pouco como a união entre o finito e o infinito. Existem até práticas graças às quais podemos nos tornar invisíveis, a prática baseada na respiração, o ninjitsu, por exemplo. Com uma prática austera e severa, podemos também fazer sair do invisível demônios, fantasmas, espiritos malfeitores e outros.

Mas todos esses poderes, afinal, não são muito grandes, pois as pessoas que os obtêm não abandonam suas ideias falsas. Malgrado suas aquisições em poderes sobrenaturais, elas não entram no Caminho do despertar, no Caminho dos budas, no Caminho da grande liberdade. A base da nagia e do poder sobrenatural é a energia. Mas essas pessoas não conhecem a energia e o poder natural dos budas, dos bodhisattvas, dos sábios e santos. Apesar disto, é através desse poder que a verdadeira magia começa.

Eis um poema do Mestre Tozan:

"Além de ku,
Além de mu,
Se quereis feitos extraordinários,
Entro em casa e sento-me entre as cinzas".
Tozan entra em casa, senta-se entre as cinzas, criado a partir do interior, a partir de mu, a partir de nada. "Entre as cinzas", quer dizer, quando os pensamentos, as ideias, as opiniões, as emoções, os apegos, os problemas psicológicos, os desejos caem. Quando caem as folhas e a árvore se desnuda. É a partir daí que os grandes artistas criam, mas também os mestres autênticos, e não a partir do sobrenatural.

Antes de ter conhecido seu mestre Doshin e a prática do zazen, Gozu vivera uma vintena de anos solitário numa gruta na montanha. Levava uma vida muito ascética, meditava muito, era certamente vegetariano e não bebia álcool... Ele tinha criado também uma relação muito particular com os animais, sobretudo com os pássaros, que, sem dúvida por conta de sua prática ascética e de seus poderes sobrenaturais, passaram a se dele se ocuparem. Levavam-lhe flores à hora de sua refeição do meio-dia (um pouco como o discípulo Ungo Doyo a quem os pássaros levavam a comer). Ele possuía uma relação privilegiada com os tigres e os lobos que se alternavam para proteger a entrada de sua gruta dos salteadores e dos outros.

Um dia, Mestre Dosshin ouve falar de Gozu e decide ir visitá-lo na montanha. Ao chegar na gruta e percebendo a presença dos tigres, finge aparentar medo. Depois franqueia a entrada e Gozu, surpreendido, lhe pergunta: "Você está sempre assim?", "Como o que?", replica Gozu. Tal troca, à primeira vista, pode parecer banal, mas, de fato, tem um significado infinito. Você está como o que? O que é assim? Quem é que faz essa pergunta? Isso toca o musshin, não-mente, nada na mente. Gozu teve, no entanto, um grande satori. Desde aquele momento, isto é, desde que ele se torna disípulo do Mestre Doshin, os pássaros não vieram mais lhe trazer flores e os tigres e os lobos o deixaram. Gozu não teve mais um poder sobrenatural, maas simplesmente um poder natural. E, assim, ele reencontrou sua condição normal.

A condição normal é o início e o fim da prática. É também a condição original, nossa condição original.Vejam um mondo que ocorreu 240 anos após aquele encontro: o monge pergunta ao Mestre Joju: "Porque, antes de que Gozu encontrasse o Mestre Doshin, os pássaros lhe levavam flores e porque, depois, deixaram de fazê-lo?" Como Gozu tinha perdido aquele poder sobrenatural, aquela magia, depois de encontrar um mestre da transmissão? E eis o que respondeu o Mestre Joju: "Estamos cansados de carregar lenha para o fogo e de carregar água." Eu escutei essa resposta em um kusen com o Mestre Deshimaru. às vezes escutamos coisas qunado estamos em zazen e as circunstâncias, o silêncio no dojo, e o nosso estado de espírito ali faz com sejamos muito golpeados. Em seguida, li e reli essa história, bem como o diálogo entre o monge e Joju e, cada vez mais lemos algo, lentamente, observando cada palavra, mais aquilo se torna infinitamente profundo...


21 setembro 2011

Fukanzazengi - 39º Comentário de Coupey

Além do mais, é perfeitamente impossível para nossa mente discriminativa, compreender seja como os Budas e patriarcas procuravam exprimir a essência do Zen a seus discípulos com o dedo, vara, agulha ou martelo, ou como eles passavam a iluminação com um hossu, punho, bastão ou grito. Nem pode este assunto ser captado através de poderes sobrenaturais, ou através de uma visão dualista da prática e iluminação.

Quando começou a praticar como mestre, Dogen tinha um ponto de vista favorável em relação aos diferentes métodos, como gritos e golpes de punho, empregados pelos mestres zen para despertar seus discípulos. Foi apenas depois que ele começçou a criticar essa maneira de educar, particularmente empregada nas escola Rinzai.

...com o dedo...


O Mestre Gutei era célebre por seu modo de educar com o dedo, mais precisamente com o polegar. Um dia, uma monja perguntou ao Mestre Gutei, "Qual é a essência do budismo?" Ele não soube o que responder. Então ela se foi, nada impressionada. Mais tarde, quando seu mestre Tenryu lhe visitou, Gutei lhe fez a mesma pergunta, "Qual é a essência do budismo?" Tenryu, sem nehuma palavra, levantou o polegar. Gutei ficou completamente surpreso. Ele obteve o satori. Compreendeu que a essência do zen nada mais era do que um polegar para cima. Ele pôs-se então a educar seus discípulos com esse método. Quando não podia responder alguma pergunta com palavras, "O que é mu, ku?', "o que é o satori?", ele levantava seu polegar. E muito tempo depois, ele morreu assim, brandindo seu polegar.
Um dia li uma frase do escritor Bukowski que dizia algo como, "Quando vocês não podem dizê-lo em palavras, é porque o que têm a dizer nada vale". Mas esse não era o caso de Gutei que trasmitia sem palavras, apenas com o seu polegar. E é certamente mais eficaz mostrar seu polegar do que torcer a orelha de seu discípulo dizendo "Acorde!" ( O Mestre Deshimaru também empregava seu polegar, não para responder perguntas, mas para explicar, comentar, trocar algo com alguém durante um mondo).

Uma vara...
(em algumas versões, "um mastro")

Diz-se que Ananda, o segundo patriarca da linhagem budista - Buda, Mahakashyapa, Ananda - realizou a verdade quando ouviu o mastro de um templo cair por terra.

Uma agulha...
O discípulo de Buda, Anirhuda, caía no sono sempre que o Buda pregava. Escandalizado com sua própria preguiça, ele fez votos de nunca mais dormir e trabalhar dia e noite sem descansar. Buda lhe assinalou diversas vezes que certamente um monge não devia ser preguiçoso, mas que trabalhar em excesso e sem descanso era errado. Anirhuda lhe respondeu: "Não posso esquecer os votos que fiz". Em seguida, ficou cego. Um dia, ela tentava cerzir seu kesa, mas não podia passar a linha na agulha. Isto foi relatado ao Buda que o veio ver em sua choupana. "Anirhuda, disse-lhe da porta, dá-me tua agulha e tua linha e eu costuro o teu manto". O velho monge reconheceu a voz de seu mestre e perguntou: "Vós praticais a compaixão e as boas ações há longo tempo, porque deveríeis ajudar-me a enfiar essa linha?" Buda lhe respondeu: "Como tu, não posso esquecer os votos que fiz". Com essas palavras, Anirhuda obteve o satori.

Um martelo...

Dizia-se que o bodhisatva Manjusri ensinava o Dharma servindo-se de um martelo.

Eles passavam a iluminação com um hossu...

Um hossu é um espanta-moscas. É também um espanta-moscas para espantar as moscas humanas. Trata-se de um bastão com cerca de 30cm de comprimento, guarnecido em sua ponta com pelos de iaque. Não deve ser confundido com o kotsu, bastão encurvado que é o sinal do mestre, usado no dojo e durante os sesshins.

Um punho...

Dogen faz sem dúvida alusão ao golpe de punho de Taigu, quando golpeou Rinzai, que por sua vez golpeara seu mestre Obaku...

Um bastão...

Trata-se seguramente de uma referência ao kyosaku ou "bastão de despertar", que entrou em uso no século IX, na época do Mestre Seppo. Em algumas linhagens ainda se utiliza, como na linhagem do Mestre Deshimaru. Mas no Japão e nos Estados Unidos, a tradição do kyosaku está desaparecendo.

Mestre Tokusan dizia, "Trinta golpes de bastão se você falar, trinta golpes se você se calar!" E tem a história célebre do "bastão de merda" de Mestre Unmon que, quando um monge lhe perguntou "O que é Buda", ele repondeu, "Um bastão de merda".

Um grito...
Mestre Baso era conhecido por seus gritos. Uma vez ele gritou tão forte que seu discípulo Hyakujo ficou surdo durante alguns dias... Cem anos mais tarde, Rinzai tornou-se célebre por seus gritos. Ele gritava "kwat!" em resposta a muitas perguntas que lhe faziam. Um kwat é uma exclamação sem nenhum sentido em particular. N'O Rugido do leão", Mestre Deshiumaru conta várias histórias sobre o método kwat do Rinzai. É quase sempre a mesma coisa: a maior parte do tempo a pergunta é; "Qual é a essência do budismo?" e, em resposta, Rinzai grita: "Kwat!" Depois o monge faz gasshô (às vezes Rinzai respondia levantando seu hossu). Esse grito era utilizado para balançar a mente e fazê-la balançar para fora de seus pensamentos dualistas, quando estamos centrados no ego, estamos automaticamente num estado completamente dualista. É um grito que também é servido nas artes marciais, um grito que vem do kikai tandem. Não se trata de uma energia individual, pessoal, o que é pessoal tem apenas um pouco de força, mas da energia universal.

Essas são velhas histórias, mas a coisa existe ainda hoje em dia. Muitos mestres, por exemplo, desde Gutei ou Rinzai, estendem seus polegares ou gritam "kwat!" Mas isto é completamente falso. É impossível imitar esse modo de fazer. É impossível explicar o budismo tomando emprestado do dedo de Gutei ou  a língua de Rinzai, e mesmo tomando emprestado expressões do Dharma. O que é importante não é a expressão mas a sinceridade. Não há nada a imitar, nada a tomar emprestado. Por essa prática, nós aprendemos a criar.

Cada um tem uma esperiência completamente pessoal do satori. Todos aqueles que conheceram o Mestre Deshimaru, em todo o caso muitos de seus discípulos mais próximos, foram, um dia, penso eu, golpeados ou despertados por qualquer coisa que ele disse ou fez. E isso não se passou necessariamente no dojo, pois não é apenas em zazen que alguém pode obter seu despertar, mas não importa em qual situação. Um dia, lembro-me que estávamo snas escadas, Mestre Deshimaru pediu que eu tomasse notas durante o acampamento de verão, todas as notas, do que ele dissesse no dojo. Eu lhe respondi que não queria, que eu queria fazer zazen. Ele então me disse: "Zazen não é importante. Nada importante". Aquilo foi um verdadeiro choque. Se alguma vez eu tive o satori, foi naquele momento! Além disso, eu quase cai na escada.

Nem pode este assunto ser captado... através de uma visão dualista da prática e iluminação.

O mestre não é pessoal, ele é universal. E é o encontro entre o pessoal e o universal que pode criar o despertar, a compreensão, a realização. Mesmo quando se pode experimentar os estado do Buda Xaquiamuni por uma palavra ou um grito, isto não pode ser apreendido inteiramente pelo pensamento dualista do homem.

20 agosto 2011

Fukanzazengi - 38º Comentário de Coupey


Com a força do zazen, se torna possível transcender a diferença entre “comum” e “sagrado” e podemos ganhar a habilidade de morrer enquanto fazendo zazen ou enquanto de pé.

Dogen aqui evoca os mestres do passado, aqueles que servem como exemplo, aqueles que transcenderam o comum e o sagrado. É o caso de Bodhidharma quando respondeu ao imperador Wu que lhe perguntara a propósito de sua prática e de seu satori: "Vazio insondável, nenhuma santidade". Para ser mais exato, Boshidharma de fato respondeu "Kakunen mushô". Kakunen quer dizer "céu infinito, aberto", e mushô, "nenhuma santidade, nenhum delírio". Nennhuma santidade. Apenas a imensidão do céu. Mas para descobri-la, é preciso abrir, retirar o teto.

Então, nos diz Dogen, graças ao poder da prática do zazen, não só os antigos monges e praticantes transcenderam o comum e o sagrado, mas morreram de morte natural fazendo zazen ou kinhin. Mahakashyapa, por exemplo, o primeiro discípulo de Buda, morreu no monte Kukku quando estava sentado em zazen. E quase todos os mestres da linhagem do zen na China (em seus começos) morreram dessa maneira - a linhagem de Bodhidharma, Eka, Sôzan, Dôshin, Kônin, Enô. Bodhidharma, tendo sido envenenado, conseguiu sentar-se em zazen para morrer. Eka não teve tempo e foi assassinado na rua por budistas ciumentos. Sôsan, autor do Shinjinmei, morreu em kinhin.

Dôshin, Kônin e Enô morreram em zazen. Conta-se que Enô teria dito a seus discípulos, "agora vou morrer", para em seguida sentar-se em zazen e morrer diante deles. O outro Sôzan, autor dos go-i, morreu debaixo de uma árvore em postura de gasshô. Um outro mestre, Shikan, morreu de pé. Há uma história de um monge que morreu sobre a cabeça e não caiu... Sua irmã, uma monja, encontrou-o no dojo de cabeça para baixo. Uma hora mais tarde, quando regressou, ele continuava sobre a cabeça... Ela então compreendeu que ele estava morto e o empurrou dizendo, "Pare com as suas brincadeiras!", e ele caiu...

Todos esses mestres que ensinaram até a sua morte, não estavam cercados nem de suas mulheres, nem de seus filhos, mas de seus discípulos. Sua própria morte foi um ensinamento. Basui, da linhagem Rinzai, morreu em 1327 no Japão, aos 60 anos em postura de lótus. Logo antes de morrer, disse aos seus discípulos, "Não se deixem enganar [por suas ilusões, por seus bonnô]. Observem diretamente: O que é?"

Essa maneira de morrer, sentado ou de pé, não é uma ação especial, não tem nada a ver com algum poder sobrenatural. Trata-se simplesmente de nos servirmos inconscientemente do vigor e da força do zazen. Morrer em zazen quer dizer também morrer de seu pequeno ego. Mestre Daicho Sokei fala em um poema sobre as mortificações às quais Buda se submetia antes de seu despertar:

"Sob suas pernas cruzadas, a cada ano o junco se reverdecia.
Ele se tornou uma criatura tão lamentável que não podia mais viver sua morte".

Sem vida, ele não podia mais viver sua morte.

Ao fim, pouco importa a maneira que esses mestres morreram. O que conta é que, graças à sua prática contínua e a seu karma, eles puderam funcionar completa e inconscientemente, e morrer naturalmente, daquela maneira, como viveram. Nada mais.