02 outubro 2011

Fukanzazengi - 40º Comentário de Coupey

Nem pode este assunto ser captado através de poderes sobrenaturais...

Nenhum poder sobrenatural permite conhecer melhor. Conhecer o que? Não apenas o despertar fornecido por um dedo, um polegar ou um hossu, mas também bodaishin: a mente do despertar, a mente que observa mujo, a impermanência do mundo.

Isso tudo quer simplesmente dizer que quando estamos sentados em zazen, nosso poder é um poder natural, não um poder sobrenatural. E através desse poder natural, podemos enxergar nossa natureza original, o que é impossível através de práticas sobrenaturais.

Mestre Nansen foi um dia à fazenda situada ao lado do mosteiro do qual era abade. Mas, na noite anterior, uma divindade especial do país da terra havia informado os camponeses de sua visita, que então prepararam uma grnade refeição para a sua chegada. Nansen ficou vivamente espantado: "Como vocês sabiam que eu viria?" "Foi a divindade da terra que nos avisou ontem à noite", explicou um dos camponeses. Nansen não era nada orgulhoso de sua prática e se dizia que ela era bem pobre para as divindades pudessem espionar o que passava por sua cabeça. Mas, na verdade, um grande mestre da transmissão, ele sabia muito bem o que havia se passado. As divindades puderam observar sua mente a partir do fato que ela ia numa direção particular e se colocava alguma coisa, no caso, sobre a refeição que teria lugar entre os camponeses, e não sobre nada. Ele não estava concentrado, mas agarrado a qualquer coisa. Nansen quando percebeu que não podia espiar sua mente, pôs-se a praticar profundamente o Caminho. E, pouco a pouco, sua mente já não se manifestava. Ele já não estava infleunciado pelos fenômenos, os shiki mentais. Pelo poder natural do zazen, Nansen tornou-se um com a sua natureza original, essa natureza que existe antes de todo primeiro pensamento, antes da criação do mundo. As divindade não puderam mais vê-lo. Nansen lhes tornou invisível.

Seguramente, os poderes sobrenaturais existem. Conhecer os acontecimentos passados ou futuros, por exemplo, é um poder sobrenatural adquirido por uma prática contínua, por um treinamento rigoroso levado a cabo dia após dia, ano após ano, "treinamento" que praticamos em nossa sangha. Através desse treinamento, frequentemente ascético, a consciência e acuidade se desenvolvem, aumentam, até o ponto em que se pode ver o que é despercebido, desconhecido. É um pouco como a união entre o finito e o infinito. Existem até práticas graças às quais podemos nos tornar invisíveis, a prática baseada na respiração, o ninjitsu, por exemplo. Com uma prática austera e severa, podemos também fazer sair do invisível demônios, fantasmas, espiritos malfeitores e outros.

Mas todos esses poderes, afinal, não são muito grandes, pois as pessoas que os obtêm não abandonam suas ideias falsas. Malgrado suas aquisições em poderes sobrenaturais, elas não entram no Caminho do despertar, no Caminho dos budas, no Caminho da grande liberdade. A base da nagia e do poder sobrenatural é a energia. Mas essas pessoas não conhecem a energia e o poder natural dos budas, dos bodhisattvas, dos sábios e santos. Apesar disto, é através desse poder que a verdadeira magia começa.

Eis um poema do Mestre Tozan:

"Além de ku,
Além de mu,
Se quereis feitos extraordinários,
Entro em casa e sento-me entre as cinzas".
Tozan entra em casa, senta-se entre as cinzas, criado a partir do interior, a partir de mu, a partir de nada. "Entre as cinzas", quer dizer, quando os pensamentos, as ideias, as opiniões, as emoções, os apegos, os problemas psicológicos, os desejos caem. Quando caem as folhas e a árvore se desnuda. É a partir daí que os grandes artistas criam, mas também os mestres autênticos, e não a partir do sobrenatural.

Antes de ter conhecido seu mestre Doshin e a prática do zazen, Gozu vivera uma vintena de anos solitário numa gruta na montanha. Levava uma vida muito ascética, meditava muito, era certamente vegetariano e não bebia álcool... Ele tinha criado também uma relação muito particular com os animais, sobretudo com os pássaros, que, sem dúvida por conta de sua prática ascética e de seus poderes sobrenaturais, passaram a se dele se ocuparem. Levavam-lhe flores à hora de sua refeição do meio-dia (um pouco como o discípulo Ungo Doyo a quem os pássaros levavam a comer). Ele possuía uma relação privilegiada com os tigres e os lobos que se alternavam para proteger a entrada de sua gruta dos salteadores e dos outros.

Um dia, Mestre Dosshin ouve falar de Gozu e decide ir visitá-lo na montanha. Ao chegar na gruta e percebendo a presença dos tigres, finge aparentar medo. Depois franqueia a entrada e Gozu, surpreendido, lhe pergunta: "Você está sempre assim?", "Como o que?", replica Gozu. Tal troca, à primeira vista, pode parecer banal, mas, de fato, tem um significado infinito. Você está como o que? O que é assim? Quem é que faz essa pergunta? Isso toca o musshin, não-mente, nada na mente. Gozu teve, no entanto, um grande satori. Desde aquele momento, isto é, desde que ele se torna disípulo do Mestre Doshin, os pássaros não vieram mais lhe trazer flores e os tigres e os lobos o deixaram. Gozu não teve mais um poder sobrenatural, maas simplesmente um poder natural. E, assim, ele reencontrou sua condição normal.

A condição normal é o início e o fim da prática. É também a condição original, nossa condição original.Vejam um mondo que ocorreu 240 anos após aquele encontro: o monge pergunta ao Mestre Joju: "Porque, antes de que Gozu encontrasse o Mestre Doshin, os pássaros lhe levavam flores e porque, depois, deixaram de fazê-lo?" Como Gozu tinha perdido aquele poder sobrenatural, aquela magia, depois de encontrar um mestre da transmissão? E eis o que respondeu o Mestre Joju: "Estamos cansados de carregar lenha para o fogo e de carregar água." Eu escutei essa resposta em um kusen com o Mestre Deshimaru. às vezes escutamos coisas qunado estamos em zazen e as circunstâncias, o silêncio no dojo, e o nosso estado de espírito ali faz com sejamos muito golpeados. Em seguida, li e reli essa história, bem como o diálogo entre o monge e Joju e, cada vez mais lemos algo, lentamente, observando cada palavra, mais aquilo se torna infinitamente profundo...


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