29 março 2007

Sandokai - 15º Comentário de Suzuki

Os quatro elementos retornam à sua fonte
Assim como uma criança retorna à sua mãe.
O fogo esquenta, o vento se move,
A água é úmida, a terra é dura.

De acordo com o pensamento budista, os quatro elementos são fogo, vento, água e terra. Embora não seja uma descrição perfeita, dizemos que cada um desses quatro elementos tem sua natureza própria. A natureza do fogo é purificar. O vento faz com que as coisas amadureçam. Não sei por que, mas a natureza vento estimula as coisas a se tornarem mais maduras. O vento tem uma atividade mais orgânica, enquanto a atividade do fogo é mais química. A natureza da água é conter coisas. Onde quer que você vá, há água; a água contém tudo. Isto é o contrário da maneira habitual de pensar sobre a água. Ao invés de dizer que há água no tronco da árvore, dizemos que a água contém o tronco das árvores, como também as folhas e os galhos. Assim, água é algo que é tão vasto que tudo, incluindo nós mesmos, existe. A solidez é a natureza da terra. "Terra" aqui não quer dizer propriamente terra, mas a natureza sólida das coisas.

De acordo com o Budismo, quando você examina uma coisa até a menor unidade imaginável, a menor unidade imaginável é chamada gokumi. Embora às vezes seja chamada de "átomo", na realidade não é o átomo porque o átomo não é a unidade final. Não conheço os termos adequados, mas de acordo com minha compreensão da física moderna, a unidade menor, final não tem peso ou tamanho. É apenas energia elétrica.

É bastante estranho, mas o Budismo tem uma idéia semelhante. Embora gokumi contenha os quatro elementos - fogo, vento, água e terra - não é algo sólido. Quando você chega a este ponto, vemos que a natureza é apenas vacuidade. Os quatro elementos não são apenas matéria. Eles são energia ou potencial ou prontidão. Isto é gokumi. A estes quatro elementos adicionamos a qualidade da vacuidade. Assim, fogo, vento, água e terra são todos vazios. Ainda que sejam vazios, desta vacuidade esses quatro elementos passam a existir. E tão logo esses quanto elementos passam a existir, exatamente aqui está a unidade final gokumi. Esta é a compreensão budista do ser. Parece que estejamos falando apenas sobre matéria, mas esses elementos não apenas matéria. Eles são tanto matéria quanto espírito. A mente que pensa está incluída. Do mesmo modo, a vacuidade inclui tanto a matéria quanto o espírito, tanto a mente quanto o objeto, tanto mundo subjetivo quanto o mundo subjetivo. A vacuidade é o ser final que nossa mente pensante não pode alcançar.

Cada um desses quatro elementos, assim, resume sua própria natureza, isto é, dirige-se à vacuidade. "Como uma criança retorna à sua mãe". Sem mãe não há criança. Se a criança está aqui significa que a mãe está aqui. Se a vacuidade está aqui significa que os quatro elementos estão aqui. E ainda que os quatros elementos estejam aqui, não há nada senão uma formação momentânea da vacuidade final.

09 março 2007

Intervalo com Mestre Dogen

“Estudar o caminho de Buda, é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo, é ser despertado por todas as existências. Ser despertado por todas as existências é despojar-se de seu próprio corpo e de seu próprio espírito, bem como do corpo e do espírito do outro. Nenhum traço de realização permanece, e este não traço continua incessantemente”.

07 março 2007

Sandokai - 13º Comentário de Deshimaru

Dentro da luz, há escuridão,
Mas não tente entender esta escuridão.
Dentro da escuridão, há luz,
Mas não procure por esta luz.


O corpo e o espírito constituem uma unidade. A saúde do corpo depende de nossa felicidade. Um espírito inquieto, e o corpo será frágil, sem atividade. Tristes, nós choramos, mas a tristeza não é forma. Ela se exterioriza sob a forma de lágrimas. A tristeza torna-se lágrimas, o corpo se coloca em uníssono com o espírito. As combinações do espírito se manifestam na mão, no corpo, enquanto que, inversamente, as atitudes do corpo se projetam no espírito.

Um espírito chora e o universo chora...

Todas as existências do cosmo nada mais são do que um único e mesmo corpo. Compreender, dar-se conta de que o corpo é o todo, que a fonte do espírito é una, é o verdadeiro satori, o despertar mais elevado. O próprio universo se transforma no "Rei do Samâdhi", nirvana, espírito do Buda. É assim: no Zen, nosso espírito, nosso corpo, todos os elementos, todas as existências e todas as ilusões resumem-se em ku. E, na realidade, não há nem ilusões nem desilusões, nem correto nem falso, nem escuridão nem luz.... A luz total é toda a escuridão, e toda escuridão torna-se luz.

O escuro que abrange a luz não é tão escuro, pois tudo é luz, tudo é natureza de Buda, tudo é consciência cósmica. Uma vez que o ego é negado, abandonado, o verdadeiro ego aparece. Este verdadeiro ego se realiza no indivíduo. A individualização real só pode se dar no abandono do ego.

A individualização é San, o abandono Do.
Além dos dois: Kai.
Além de Do: Kai.
Além de Ku: Kai.
Além das shiki: Kai.
Além de San Do: Kai.
Além do abandono do ego: Kai.

Na luz não podemos ver a escuridão... e na escuridão não podemos ver a luz. Não podemos ver o lado luminoso porque tudo é sombrio, e vice-versa.

A fonte do espírito é clara, mas, na escuridão, tudo é sombrio, ela também parece escura. Esta fonte não está oculta, nós apenas a consideramos escura. Assim podemos dizer que na escuridão existe a luz.

A luz é o mundo das diferenças, na escuridão reina a identidade. O claro torna-se escuro e o escuro torna-se claro. A natureza Buda torna-se existência humana e, assim, as existências humanas têm a natureza Buda, natureza original. Mas as existências humanas não realizam a Existência Humana... Este é um grande koan!

Nenhuma diferença, apesar disso, entre os seres humanos e Buda... Uma história:

Mestre Reyu gostava de dizer: "Quando educava Daian com a idade de vinte anos, esta educação era de uma jovem vaca. Ela comia tudo... Todas as ervas do campo. Ela não se incomodava em invadir o terreno vizinho. Ela ia por toda a parte onde queria, seguindo seu próprio caminho, e não havia jeito de me seguir. Era realmente difícil educá-la, no entanto eu desejava transformá-la. Foi nesse período difícil que nos tornamos íntimos. Minha vaca foi ficando muito bonita e, às vezes, eu aplicava-lhe uns golpes de bastão. Mesmo quando eu a golpeava, ela não tinha o menor medo, nem o menor rancor".

Num primeiro momento, um treinamento duro e severo é necessário. Tal é a prática do zazen. Receber o kyosaku, concentrar-se no comportamento na vida quotidiana... e isto até a morte. Mas o tempo passa e a vaca começa a compreender o espírito de seu Mestre. As dúvidas desaparecem, ela fica sem ansiedade, e, neste momento preciso, começa um segundo estágio. Sem dúvida nem ansiedade. O Mestre e a vaca nada mais são do que um único corpo. Um gesto dos dedos ou da mão e a vaca logo entende. A educação torna-se fácil.

Durante o período da educação, o discípulo deve se conformar exatamente com as instruções do Mestre, ajustar seu comportamento ao dele. Este período termina após o shiho. O comportamento pode, então, ser de uma forma diferente que aquela do Mestre. Mas nunca o discípulo esquece a origem, a fonte do Mestre.

Esse é um ponto muito importante. Dogen escreveu no Gakudo jin shu: "O dharma pode acionar o eu. O eu pode acionar o dharma. Quando o eu é capaz de colocar em ação o dharma, é o eu que está forte e o dharma que está fraco. Ao contrário, quando o dharma é que coloca em ação o eu, é o dharma que está forte e o eu que está fraco".

O dharma modifica o ego, o ego modifica o dharma...

Retomemos...

Desde sempre, há na lei búdica dois princípios. Mas quem não é verdadeiro herdeiro do budismo, deles não tomará conhecimento. Se não se conhecem as modalidades de estudo do Caminho, como alguém poderia discernir o verdadeiro do falso?
Realizar-se a si mesmo: apenas isso. Nosso ego é a sede das ilusões, e o dharma é, na realidade, a natureza do Buda. Um sábio que entra no jogo das ilusões não é um sábio autêntico. O Buda que segue o jogo das ilusões não será Buda. Um prisioneiro, se ele realiza o estado de Hishiryo, não é mais um prisioneiro, mas um Buda.

21 fevereiro 2007

Sandokai - 14º Comentário de Suzuki

As visões variam na qualidade e na forma,
os sons diferem como agradáveis ou estridentes.
A fala comum e a refinada vêm juntas no escuro,
frases claras e obscuras são distinguidas na luz.

Tudo tem sua própria forma e natureza. Quando você ouve uma voz ela pode ser tanto agradável quanto desagradável. Aqui o Sandokai fala de visões e sons, mas o mesmo vale para todos os sentidos, bem como para a mente. Há gostos bons e ruins, sentimentos bons e maus, idéias agradáveis e desagradáveis. É o nosso apego a essas coisas que nos causa sofrimento. Quando você ouvir algo bom, você apreciará. Quando você ouvir algo ruim, você ficará aborrecido ou perturbado. Mas se você compreender a realidade completamente, você não ficará incomodado com as coisas. A próxima frase explica a razão: "A fala comum e a refinada vêm juntas no escuro" - An wa jochu koto ni kanai.
Compreendemos as coisas de duas maneiras: na escuridão (an) e na luz da forma (shiki), vemos as coisas como boas ou ruins. Sabemos que não existem coisas boas ou ruins em si. Somos nós que distinguimos as coisas como boas ou ruins e assim criamos o bom e o ruim. Não sofreremos tanto se soubermos disto. "Oh, é o que estou fazendo!"

As coisas em si não têm natureza boa ou ruim. Compreender isto é compreender as coisas na escuridão profunda. Então você não ficará envolvido na compreensão dualística das coisas como boas e ruins. Sekito diz, "A fala comum e a refinada vêm juntas no escuro". A escuridão inclui o bom e o ruim. As palavras boas e ruins não lhe perturbarão na escuridão profunda.

"Frases claras e obscuras são distinguidas na luz". Há palavras puras e palavras lamacentas. Na claridade temos palavras dualísticas, a dualidade do puro e do impuro.

Mesmo quando estamos aborrecidos com alguém, ainda podemos mostrar gratidão àquela pessoa. Porque conhece um aluno muito bem, às vezes, um professor ficará aborrecido com ele. O professor sabe que o aluno é muito bom, mas às vezes ele fica preguiçoso. O professor brigará com ele. Às vezes, o professor o elogiará e o encorajará. Mas isso não quer dizer que estejamos usando diferentes métodos ou atitudes. A compreensão é a mesma, mas a expressão é diferente. Os alunos que são pessimistas, que vêem as coisas muito negativamente, devem ser encorajados. Mas se eles são bons demais ou brilhantes demais, o professor deverá repreendê-los. Esse é o nosso modo de ser.

Dizemos "modo positivo" e "modo negativo". O modo positivo é reconhecer as coisas em termos de bom ou ruim, bonito ou feio. Se você se esforçar, será um bom aluno. Reconhecer o esforço de um aluno é o modo positivo. O modo negativo é não aceitar qualquer coisa. O que quer que você diga, receberá trinta pancadas. Positivo e negativo, às vezes um, às vezes outro. Habitualmente somos muito apegados seja ao lado claro, seja ao lado escuro das coisas.

Você conhece este famoso koan? Um monge perguntou a um mestre, "Está tão quente. Como é possível fugir do calor?" O mestre disse, "Porque você não vai para um lugar que não seja frio nem quente?" O discípulo disse, "Existe um lugar que não seja nem frio nem quente?" O mestre disse, "Quando está frio, você deve ser um buda frio. Quando está quente, você deve ser um buda quente". Você pode achar que se praticar o zazen atingirá um estágio onde não seja nem quente nem frio, onde não haja nem prazer nem sofrimento. Você pode perguntar, "É possível alcançar este estágio se praticarmos o zazen?" O professor de verdade dirá, "Quando você sofrer, deve sofrer. Quando você se sentir bem, deve se sentir bem". Às vezes você será um buda sofredor. Às vezes você será um buda chorão. E às vezes você será um buda muito feliz.

Esta felicidade não é exatamente a mesma felicidade que as pessoas normalmente têm. Há uma pequena diferença, e esta diferença é significativa. Os budas têm este tipo de serenidade porque conhecem ambos os lados da realidade. Não são perturbados por algo ruim, nem ficam em êxtase por algo bom. Eles possuem uma alegria verdadeira que os acompanha sempre. O tom básico da vida permanece o mesmo, e nele há algumas melodias alegres e algumas melodias tristes. Esse é o sentimento que uma pessoa iluminada pode ter. Quer dizer que quando está quente ou quando você está triste, você deve ficar completamente envolvido em estar quente ou triste, sem ligar para a felicidade. Quando você estiver feliz você deve simplesmente desfrutar a felicidade. Podemos agir assim porque estamos preparados para qualquer coisa. Ainda que as circunstâncias mudem subitamente, não nos importamos. Hoje podemos estar muito felizes e não sabemos o que nos acontecerá no dia seguinte. Podemos aproveitar o dia de hoje completamente quando estamos prontos para o que acontecerá amanhã. Você não faz isso estudando uma lição, mas apenas através da sua prática.

Essas são as palavras de Sekito. Mais tarde, no tempo de Tozan (três gerações depois), as pessoas ficaram enredadas em jogos verbais sobre claridade e escuridão. Elas gostavam de ficar falando sobre o lado claro, o lado escuro e o caminho do meio e perderam o que era importante para obter a liberdade real.

Dogen Zenji, que viveu ainda mais tarde, não se deixou aprisionar tanto por esses jogos de palavras. Mais que isso, enfatizou como escapar dos jogos de palavras apreciando plenamente as coisas momento a momento. Ele estava mais interessado no koan do tipo, "Quando está frio, você deve ser um buda frio; quando está quente. você deve ser um buda quente". Isto é tudo. O caminho de Dogen é ficar envolvido completamente no que você estiver fazendo sem ficar pensando em várias coisas. Este tipo de consecução só é alcançado através da prática real, não através das palavras.

As palavras podem ajudar a sua compreensão das coisas. Quando você está muito dualista, ficando confuso, elas podem ajudá-lo. Mas se você estiver interessado demais em ficar falando sobre essas coisas, você perderá seu caminho. Devemos ficar interessados no zazen real, não nessas palavras, e devemos praticar o zazen real.

O caminho de Dogen Zenji é descobrir o significado de cada ser - como um grão de arroz ou um copo d'água. Você pode dizer que um copo d'água ou um grão de arroz são coisas que você vê na claridade. Mas quando você respeita plenamente um grão de arroz, quero dizer, quando você o respeita realmente como respeita o próprio Buda, você compreenderá que um grão de arroz é absoluto. Quando você vive completamente envolvido no mundo dualístico, você tem o mundo absoluto em seu verdadeiro sentido. Quando você pratica o zazen, sem buscar iluminação ou buscar qualquer coisa, há, então, verdadeira iluminação.

13 fevereiro 2007

Sandokai - 12º Comentário de Deshimaru

O fogo esquenta, o vento se move,
A água é úmida, a terra é dura.
Para os olhos, há a cor,
Os ouvidos percebem os sons, o nariz, os odores,
A língua diferencia o salgado do doce.
Mas todas as existências, como as folhas da árvore,
São alimentadas pela raiz.
A origem e o fim procedem da mesma fonte: ku.
A origem e o fim regressam ao nada.
Nobre ou vulgar são empregáveis a vosso gosto!

O fogo da lenha queimando na lareira e o ferro em fusão no cadinho, não atingem a mesma temperatura. No entanto, a fonte, a origem é o fogo. Não podemos ver a origem, ela existe na profundeza obscura.

Não podemos compreender a essência do ar, a fonte do vento no céu.

O ar se move de uma zona de alta pressão para uma zona de baixa pressão - o vento está criado! Vento suave ou violento, pode até ser mesmo um tufão! Na água, também, numerosos fenômenos podem se produzir. Igualmente o tempo pode tornar-se pedra...

Com os olhos fechados não podemos compreender o que é a visão mas, se os abrimos, múlltiplas cores aparecem. As sete notas da escala tornam-se, na música, milhares de sons diferentes. Qual é a fonte, a origem de todas essas vibrações?

Um dia, num templo, um jovem monge perguntou a seu Mestre: "O sino do templo ressoa, meus ouvidos escutam, mas onde se encontra o som?" Esta pergunta transformou-se em um célebre koan.

O nariz percebe numerosos odores diferentes. Se não comemos, a língua não pode degustar nada, mas é função da língua perceber e diferenciar os paladares, doce, salgado, amargo, suave. Se colocarmos um pedaço de carne no nariz de um gato e ele só perceber o cheiro, lamberá o prato.

Meu Mestre Kodo Sawaki repetia sempre: "Uma certa pessoa que tinha um pedacinho de cocô na ponta do nariz perguntava: 'Mas quem é que está fedendo aqui?"

Sem objeto e sem propósito, nosso espírito não é tão complicado. Um objeto, um propósito e numerosos fenômenos se elevarão. Uma única e mesma raiz produz numerosas folhas. De uma única fonte, numerosos fenômenos podem surgir. Mas a origem e o fim são, em última instância, ku. Há numerosas concepções, rico ou pobre, Deus ou Buda, homem ou demônio, e cada uma tem sua utilidade, mas, em definitivo, a fonte original e o destino último retornam ao nada.

02 fevereiro 2007

Sandokai - 13º Comentário de Suzuki (cont.)

No texto está dito, "Um e todos, o sujeito e o objeto estão relacionados e, ao mesmo tempo, são independentes". Embora todas as coisas estejam interrelacionadas, todos - todos os seres- podem ser chefe. Cada um de nós pode ser um chefe porque estamos intimamente relacionados. Quando digo "João", João já não é apenas João. Ele é um dos estudantes do Centro Zen e ver João é ver o Centro Zen. Quando você vê João, você compreende qual é o Centro Zen. Mas se você pensar, "Ah, ele é apenas o João", sua compreensão não está boa o bastante. Você não sabe quem é João. Quando você tem um bom conhecimento das coisas por elas mesmas, você compreenderá o mundo inteiro através das coisas. Cada um de nós é o chefe do mundo inteiro. Quando você compreender isto, você se dará conta de que todas as coisas estão interrelacionadas, embora elas também sejam independentes. Cada um de nós é completa e absolutamente independente. Nada há para comparar. Vocé não é nada mais que você.

Devemos compreender as coisas de duas maneiras. Uma maneira é compreender que as coisas estão interrelacionadas. Outra, é compreender a nós mesmos como bastante independentes de tudo. Quando incluímos tudo como nós mesmos, somos completamente independentes porque não há nada com o que nos possamos comparar. Se há apenas uma coisa, como você pode comparar algo com ela? Porque não há nada com o que você se possa comparar, isto é independência absoluta, não interrelacionada, absolutamente independente.

Em certo momento o texto diz, "sujeito e objeto". Os sentidos - nossos olhos, ouvidos, nariz, lingua e corpo - são portas, e os objetos sensíveis entram por essas portas. Eles são interrelacionados mas ao mesmo tempo, independentes. Para os olhos, há algo a ver, para os ouvidos, algo a ouvir, para o nariz, algo a cheirar, para a língua, algo a degustar, para o corpo, algo a tocar. Há cinco tipos de objetos do sentido para os cinco órgãos dos sentidos. Este é o senso comum budista. A referência a eles no poema é apenas uma maneira de dizer "tudo". É o mesmo que dizer "flores e árvores, pássaros e estrelas, rios e montanhas", embora digamos "cada sentido e seus objetos".

Deste modo os vários seres que vemos e ouvimos estão interrelacionados, embora ao mesmo tempo cada ser seja absolutamente independente e possua seu próprio valor. Este valor chamamos ri. Ri é o que dá significado a algo e não é apenas teoria. Ainda que você não atinja a iluminação, dizemos que você já dispõe da iluminação. Esta illuminação é o que chamamos de ri. O fato de que algo exista aqui é sinal de que há uma razão para isto. Não conheço a razão. Ninguém conhece. Tudo deve ter seu próprio valor. É muito estranho que duas coisas não sejam a mesma. Não há nada com o que você se possa comparar, de tal forma que você tem seu próprio valor. Este valor não é um valor comparativo ou um valor de troca, é mais que isto. Quando você está simplesmente sentando na almofada em zazen, você tem seu próprio valor. Embora este valor esteja relacionado a tudo, este valor também é absoluto. Talvez seja melhor não dizer muito.

"Estão relacionados, mas funcionam diferentemente, mantendo cada um o seu próprio lugar". Um pássaro vem do sul na primavera e volta no outono, atravessando várias montanhas, rios e oceanos. Deste modo, as coisas estão interrelacionadas incessantemente, por toda a parte. Ainda que o pássaro permaneça em algum lugar, em algum lago, por exemplo, seu lar não é apenas o lago, mas também o mundo inteiro. Um pássaro vive desta forma.

Dizemos, às vezes, no Zen que cada um de nós é íngreme como um penhasco. Ninguém pode escalar-nos. Somos completamente independentes. Mas quando você me ouve dizer isto, deve compreender que existe o outro lado também - que estamos incessantemente interrelacionados. Se você não entende as palavras Zen, você não entende o Zen e você ainda não é um estudante Zen. As palavras Zen são diferentes das palavras comuns. Elas cortam em ambas as direções, como uma espada de dois gumes. Você pode pensar que estou cortando para a frente, mas não, estou cortando para trás também. Observe meu bastão. Percebe? Às vezes repreendo um aluno - "Não!". Os outros alunos pensam, "Oh!, ele foi repreendido", mas isto não é assim na realidade. Porque não posso repreender aquele ali, tenho que repreender aquele que está perto de mim. Mas a maior parte das pessoas pensa, "Oh, aquele pobre rapaz está sendo repreendido". Se você pensa desta maneira, você não é um estudante Zen. Quando alguém é repreendido, você deve escutar com atenção; você deve estar bem alerta para saber quem está sendo repreendido. É deste modo que treinamos.

Quando eu era um discípulo muito jovem, meus irmãos de dharma e eu fomos a algum lugar com nosso professor e voltamos muito tarde. Há muitas cobras venenosas no Japão. Meu professor disse, "Vocês estão usando tabi [meias brancas usadas com sandálias] e eu não. Uma cobra pode me picar, vocês vão na frente". Concordamos e caminhamos à sua frente. Assim que chegamos no templo ele nos disse, "Sentem-se todos". Não sabíamos o que havia acontecido, mas sentamo-nos todos à sua frente. "Que rapazes sem consideração vocês são!", disse. "Quando não estou usando tabi, porque vocês usam tabi? Eu adverti vocês: 'Eu não estou usando tabi'. Vocês deviam ter compreendido e tirado seus tabis também, mas em vez disto vocês ficaram com eles e andaram à minha frente. Como vocês são tolos, rapazes!".

Devemos estar alertas o bastante para ouvir o significado por detrás das palavras. Isto é tudo. Devemos dar-nos conta do algo mais que é dito.

Uma noite, quando eu estudava no mosteiro Eihei-ji, abri o lado direito da porta corrediça shoji - porque é costume abrir aquele lado - mas fui repreendido. "Não abra aquele lado!", disse um dos monges mais antigos. Então, na manhã seguinte, abri o lado esquerdo e fui repreendido de novo: "Porque você abriu aquele lado?" Não sabia o que fazer. Quando abria o lado direito, era repreendido, quando abria o lado esquerdo, era repreendido de novo. Não conseguia descobrir porque. Mas finalmente me dei conta de que, na primeira vez, havia um convidado no lado direito e, na segunda, o convidado estava do lado esquerdo. Assim, em ambas as vezes abri o lado que expunha o convidado. Foi por isso que fui repreendido. No mosteiro de Eihei-ji nunca diziam o porquê, simplesmente nos repreendiam. Suas palavras tinham dois gumes.

As palavras do Sandokai também têm dois gumes. Um lado é a interdependência (ego) e um lado é a independência absoluta (fuego). Esta interdependência avança por toda a parte, mas as coisas permanecem em seus próprios lugares. Este é o ponto principal do Sandokai.

20 janeiro 2007

Sandokai - 13º Comentário de Suzuki

Nossa mente e as coisas são uma coisa só. Quando você pensa, "Tudo isto é mente", isto é assim. Se você pensar, "Lá está um outro ser", isto também é assim. Mas chegando direto ao ponto, quando os budistas dizem "isto" ou "aquilo" ou "eu", esse "isto" ou "aquilo" ou "eu" inclui tudo. Escute o tom mais do que apenas as palavras.
O som é diferente do ruído. O som é algo que vem da sua prática. O ruído é algo mais objetivo, algo que pode incomodá-lo. Quando você bate num tambor, o som que você produz é o som de sua própria prática subjetiva e é também o som que encoraja a todos nós. O som é tanto subjetivo quanto objetivo.
No Japão, dizemos hibiki. Hibiki significa "algo que avança e recua como um eco". Se digo algo, terei retorno, para trás e para a frente. É som. Os budistas compreendem o som como algo criado na nossa mente. Posso pensar, "O pássaro está cantando ali". Mas quando eu ouço o pássaro, o pássaro já sou eu. Na realidade, não estou ouvindo o pássaro. O pássaro já está aqui na minha mente e estou cantando junto com o pássaro. Pi-pi-pi. Se você pensar quando estiver estudando, "O gaio azul (Cyanocitta cristata) está cantando no meu telhado, mas seu canto não é tão bom", este pensamento é ruído. Quando você não é perturbado pelos gaios azuis, os gaios azuis penetram no seu coração e você será um gaio azul, o gaio azul estará lendo algo e o gaio azul não perturbará sua leitura. Quando pensamos, "O gaio azul não deveria estar no telhado", este pensamento é uma maneira mais primitiva de ser. Compreendemos coisas desta maneira em função de nossa falta de prática.

Quanto mais você praticar o zazen, mais será capaz de aceitar algo como seu, o que quer que seja. Este é o ensinamento de jiji muge da escola Kegon (Ch. Huayen). Jiji significa "ser que não tem barreiras, nem inquietações". Como as coisas estão interrelacionadas, é difícil dizer, "Isto é um pássaro e isto sou eu". É difícil separar o gaio azul de mim. Isto é jiji muge.

07 janeiro 2007

Sandokai - 11º Comentário de Deshimaru

Os quatro elementos retornam à sua fonte
Assim como uma criança retorna à sua mãe.

Os quatro elementos são os elementos de base de nosso mundo: terra, fogo, água e ar. Estes elementos pertencem ao domínio do obscuro. Apesar disto, em último recurso, eles se resolvem em pura luz, eles retornam à simplicidade última de seus componentes atômicos. O próprio átomo é o resultado de uma situação de equilíbrio entre forças negativas e positivas, forças de atração e repulsão.

A profundeza, que reune, inclui o positivo e o negativo, o centrípeto e o centrífugo, a concentração e a dispersão, o Yang e o Yin... Cada indivíduo é alvo da contradição de duas tendências primordiais: tendência à autonomia, poder de recusa, manifestação da personalidade, sabedoria, de um lado; tendência à comunidade, poder de inserção, atração de outrém, amor do outro, de outro lado. Em zazen, nós integramos completamente essa contradição, uma vez que, no dojo, estamos ao mesmo tempo sós e juntos.

Nosso caráter é castigado com o mesmo tratamento do aço: para reforçar a resistência, é primeiro aquecido ao rubro, depois temperado na água fria antes de ser forjado.

Eu falo sempre na ordem cósmica. Do que se trata exatamente? A ordem cósmica pode ser vista como a combinação, o equilíbrio, a síntese das forças centrífuga e centrípeta. Em todos os fenômenos, estamos em presença da pulsação destas duas tendências opostas e complementares: união e separação, concentração e dispersão, luz e escuridão, força vital e entropia... A flor dos campos abre-se pela manhã e fecha-se à noite. O coração bate ritmadamente em sístole e diástole. As nuvens de hélio e hidrogênio dispersas no espaço interestelar se concentram, condensam-se e fazem nascer uma estrela. Esta, ao fim de sua existência, explode, dispersando no vazio escuro os materiais que servirão à constituição de novas estrelas, novos sistemas solares...

A física nuclear, a astrofísica, a biologia molecular no confirmam cientificamente, nos dias de hoje, o que Mestre Sekito há mais de um milênio, realizou pela prática do zazen. Os fenômenos retornam ao vazio, de onde procedem, e os quatro elementos retornam à sua fonte,como a criança à sua mãe.