Dominando o universo inteiro nas dez direções, damos o primeiro passo; dominando o universo inteiro nas dez direções, nos engajamos na prática; dominando o universo inteiro nas dez direções, esclarecemos a Mente; dominando o universo inteiro nas dez direções, transformamos a atividade de nossos corpos, dominando o universo inteiro nas dez direções, revertemos a nossa maneira de pensar.
Eis uma história. Um monge perguntou Xuansha, “O sumo sacerdote [Xuansha] disse, ‘O universo inteiro nas dez direções é uma pérola brilhante’. Como pode este aluno entender isto?”
Xuansha disse: “O universo inteiro nas dez direções é uma pérola brilhante. De que serve entender isto?”
No dia seguinte Xuansha ainda perguntou o monge, “O universo inteiro nas dez direções é uma pérola brilhante. Como você entende isto?”
O monge respondeu: “O universo inteiro nas dez direções é uma pérola brilhante. De que serve entender isto?”
Xuansha disse: “Agora eu sei que você está vivendo na caverna do demônio da montanha negra”.
Após relatar a história Dogen disse. O universo inteiro em todas as direções é uma pérola brilhante. O sol, a lua e as estrelas se assemelham a um coelho e corvos. Quando você quer entender o conjunto completo, mas não entende, ficar na caverna do demônio da montanha preta é uma boa e vigorosa prática.
(Dogen, Eihei Koroku, Fala do Salão do Dharma
#107)
Vocês podem ler mais sobre o koan narrado por Dogen no sermão (texto em inglês) de John Daido Loori, Roshi, em Hsuan-sha's One Bright Pearl.
Eis uma história. Dongshan [Liangjie] disse a Yunju: Há muito tempo, Nanquan perguntou a um monge que estava dando uma palestra sobre o Sutra da Descida de Maitreya, “Quando Maitreya descerá?”
O monge respondeu: "Ele está atualmente no palácio celestial, e vai nascer no futuro".
Nanquan disse: “Não há Maitreya no céu, nem há Maitreya aqui embaixo na terra."
Em seguida, Yunju perguntou: "Se simplesmente não há Maitreya no céu e não há Maitreya aqui no chão, eu quero saber quem concedeu seu nome [Maitreya]".
Dongshan imediatamente sacudiu seu assento de meditação e disse: "Mestre [Yunju Dao] ying".
Mestre Dogen disse: Não há Maitreya no céu, e não há Maitreya aqui embaixo na terra. Maitreya não é Maitreya, [e desta forma] Maitreya é Maitreya. Ainda que isto seja assim, não querem todos ver Maitreya?
Dogen levantou o hossu e disse: Vocês se encontraram com Maitreya. Já o tendo encontrado, digam-me todos rapidamente se Maitreya existe ou não existe.
Dogen abaixou seu hossu, desceu do seu assento, e circulou pelo zendô.
(Dogen, Eihei Koroku, Fala do Salão do Dharma
#61)
Atravessei mares e rios, transpus montanhas e vadeei regatos, Para encontrar mestres, buscar o Caminho e penetrar nos segredos do Zen. Desde que pude discernir o caminho de Sôkei*, Soube que nascimento-e-morte não é a coisa à qual eu estava ligado. Andar é Zen, sentar-se é Zen; Quer falando, quer ficando em silêncio, quer se movendo, quer permanecendo quieto, a Essência está sempre em repouso; Mesmo quando ameaçada com espadas e lanças, ela jamais abandona seu sereno caminho. Mesmo venenos não conseguem perturbar sua calma.
(Yoka Daishi (613-713) Shodoka, Poema da Iluminação, Trad. Ricardo M. Gonçalves)
*Sôkei é a localidade onde ficava situado o mosteiro do Sexto Patriarca Hui-Neng.
Recomenda-se ganhar a margem inteira, mas definitivamente
evitar a criação de uma oposição frontal. Pelo lado claro [compreendendo as
diferenças] vocês merecem trinta golpes; pelo lado escuro [fundindo em unidade]
vocês merecem trinta golpes. Vocês já alcançaram isso. A todas as pessoas não
falta, nem mesmo um pouco. Porque vocês não percebem isso? Iluminação não
inveja iluminação, mas [vocês não conseguem perceber] simplesmente porque
vocês estão presos por sons e cores. Quando os sons e cores prendem a
iluminação, não estão sons e cores presos pela iluminação? Embora isto seja
assim, liberar os seus corpos em sons e cores, abrindo suas mãos no meio de
sons e cores, permanecendo lá empregando seus próprios esforços, certamente vocês podem
realizar o pilar firme do Zen e vocês podem perceber o Zen Nirgrantha, ainda
que, nem mesmo em sonhos, vocês vejam um Zen ancestral ou o Zen Tathagata*. Como
isto é muito doloroso!
Quando vocês erroneamente vestem o manto de sons e cores e
buscam vantagens através de formas externas, vocês terão em suas casas pinturas
da deusa da boa fortuna, mas vocês também estarão nutrindo a deusa da pobreza.
Quando sem expectativa, de repente vocês quebram o balde
laqueado ao estilo dos antepassados, levantam a cabeça e golpeiam seus peitos
[numa expressão não mediada], de repente vocês atingem a realização do caminho.
Quando uma pessoa realiza o caminho, o eu e o outro, juntos, realizamos o
caminho. Em uma manhã de realizar o caminho, o corpo passado e o corpo futuro, juntos,
realizam o caminho. Por exemplo, é como [atravessando um rio] em um barco ou
uma ponte, o eu e os outros andarem juntos, alcançando e penetrando o caminho.
Voltado para o leste ou voltado para o oeste, ao mesmo tempo não há paralisação
e não há obstrução de um e de outro. Alguém voltado para o leste e alguém
voltado para o oeste podem usar esse único barco. O barco é o mesmo, mas as
pessoas são diferentes. Indo para o leste ou para oeste, cada pessoa chega a
seu destino. Esta é a característica da iluminação. Quando realizamos o
caminho, não realizamos com algo mais, realizamos apenas com sons e cores.
Quando estamos iludidos, não estamos iludidos com algo mais, estamos iludidos
apenas com sons e cores. Uma pessoa iludida e uma pessoa iluminada utilizam ao mesmo
tempo um barco, e cada uma delas não é obstruída.
Nos tempos antigos, certa vez um monge perguntou a Fayan,
"Como eu posso transcender as duas palavras, som e cor?"
Fayan disse, "Grande assembleia, se vocês entenderem o
ponto desta questão deste monge, não é difícil transcender o som e a cor".
Como podemos investigar essa circunstância [da história]?
Com seus ouvidos, ouçam o alaúde sem cordas, e com os seus olhos, vejam a árvore sem
sombra. Grandes praticantes têm conhecido tal princípio. No entanto, há um
ponto que vocês precisam entender em detalhes. Com seus ouvidos, [também] ouçam
o alaúde que tem cordas, com os seus olhos, vejam a árvore que tem sombra.
Vocês já são assim. Agora eu pergunto à grande assembleia, que coisas vocês
chamam de sons e cores? Onde estão os sons e cores agora?
(Dogen Eihei Koroku, Fala do Salão do Dharma #52)
*Nirgrantha Jnatiputra, também conhecido como Mahavira. é o nome
do fundador do jainismo, contemporâneo
com Buda Shakyamuni. A tradição Jain enfatiza o ascetismo e renúncia ao mundo,
por isso, aqui, "Zen Nirgrantha” pode ser uma expressão de Dogen para a
prática que tenta rejeitar o reino de som e cores. " Pilar firme do Zen "
é uma expressão original que aqui pode implicar apenas na compreensão ou
meditação em silêncio, sem expressão aberta e partilha do ensinamento no mundo
fora do salão do Dharma. Por isso, essa frase pode ser interpretada como
dizendo que a rejeição do reino de sons e cores é outra forma de apego ao reino
de sons e cores. "Zen ancestral" tradicionalmente refere-se à pratica
como ela funciona na atividade diária normal. "Zen Tathagata" refere-se
à pratica baseada nos ensinamentos dos sutras. (Comentário de Taigen Dan Leighton)
Os budas ancestrais compreenderam o Buddha Dharma e alcançaram poderes espirituais. Realizar o estado de buda e tornar-se um ancestral não pode ser conseguido facilmente. Aqueles que apenas alcançam poder espiritual são chamados anciãos. Aqueles que entendem Buda Dharma são chamados os grandes. Compreender a grandeza e alcançar o respeito como um ancião simplesmente dependem de penetrar no princípio e de se engajar totalmente no caminho.
Zhaozhou disse: "Irmãos, apenas sentem e penetrem no princípio. Se vocês fizerem isso durante vinte ou trinta anos e não compreenderem o caminho, peguem a cabeça deste velho monge e transformem-na numa concha para recolher excremento e urina".
Um Buda ancestral falou assim, e as pessoas de hoje fazem tal prática. Como poderíamos ser enganados? Simplesmente porque estar ligada a sons e cores sem perceber seu pensamento discriminativo, a pessoa ainda não é capaz de se libertar. Que pena. Essa pessoa está desejando aparecer e desaparecer em vão nas poeiras de sons e cores. Agora podemos encontrar a oportunidade presente [a prática]. Abandonem a queima de incenso, as prostrações, o nenbutsu, a prática do arrependimento e a leitura de sutras: apenas sentem-se.
Lembro-me da visita Zhaozhou a Yunju Daoying. Yunju disse: "Grande Ancião, por que você não procura um lugar para residir?"
Zhaozhou disse: "Qual é lugar onde essa pessoa poderia viver?"
Yunju disse: "Em frente da montanha existe a fundação de um antigo templo".
Zhaozhou disse, "Grande sacerdote, seria bom para você mesmo ir viver lá".
De tal maneira, uma pessoa que entende o Buda Dharma manifesta poderes espirituais. Esta atividade não é a mesma que a daqueles dentro dos dez santos e três sábios [estágios](*). Eu, Kosho, em nome de Yunju, mais uma vez manifestarei o poder espiritual. Antes, já havia sido dito: "Qual é o lugar onde essa pessoa poderia viver." Depois, foi dito: "Grande sacerdote, viva lá você mesmo", Já tendo assim alcançado, vocês deveriam ser assim. Isto é como dizer, "Vivam, vivam".
(Dogen Eihei Koroku, Fala do Salão do Dharma #33)
(*)Os "dez santos" refere-se aos dez estágios, ou bhumis do desenvolvimento do bodhisattva, elaborados no Sutra Dašabhumika. Os "três sábios" refere-se aos três agrupamentos de dez fileiras, ou trinta degraus, que antecedem as dez etapas dos bhumis, conforme estabelecido no Sutra Gandavyuha. Tanto o Dašabhumika quanto Sutra Gandavyuha também são capítulos dentro da vasta elaboração do Sutra Avatamsaka sobre o desenvolvimento de bodhisattvas para se tornarem Budas. Dogen está dizendo que uma pessoa que entende o Buda Dharma transcende todas essas fases de desenvolvimento.
Hoje é o começo de um novo ano [1241], e também de um dia com três manhãs. Digo três manhãs, porque é o início do ano, o início do mês, e o início do dia.
Eis uma história:
Um monge perguntou a Jingqing Daofu, "Existe Buda Dharma no início do ano novo ou não?"
Jingqing disse: "Existe”.
O monge perguntou: "Qual é o Buda Dharma no início do novo ano?"
Jingqing disse, "O dia do Ano Novo começa com uma bênção, e as dez mil coisas são completamente novas".
O monge disse, "Obrigado, professor, pela sua resposta".
Jingqing disse: "Este velho monge hoje perdeu a vantagem”.
Um monge perguntou a Mingjiao Zhimen Shikuan: "Existe Buda Dharma no início do ano novo, ou não?"
Mingjiao disse: "Não existe."
O monge disse: "Todo ano é um bom ano, todo dia é um bom dia, por que não existe [Buda Dharma no início do novo ano]?"
Mingjiao disse, "O Velho Zhang bebe e o velho Li fica bêbado”.
O monge disse: "Grande Mestre, [você é como] uma cabeça de dragão e uma cauda de serpente".
Mingjiao disse: "Este velho monge hoje perdeu a vantagem."
O professor Dogen disse: [Os dois professores] dizem a mesma coisa: "Este velho monge hoje perdeu a vantagem". Ouvindo essa história muitas pessoas dizem: "Essas são boas histórias sobre [professores] perdendo vantagem [em um diálogo]". Este monge da montanha [Dogen] não concorda. Embora Jingqing e Mingjiao falem de uma perda, eles ainda não veem um ganho. Suponha que alguém perguntasse a mim, Kosho, se há Buda Dharma no início do ano novo ou não.
Eu lhe diria: Há.
Suponha que o monge respondesse, "Qual é o Buda Dharma no início do novo ano?"
Este monge da montanha iria dizer-lhe: Possam cada um e todos os corpos, parados ou de pé, obterem dez mil bênçãos.
Suponha que o monge dissesse: "Nesse caso, de acordo com essas palavras, eu vou praticar".
Este monge da montanha lhe diria: Eu, Kosho, hoje levei vantagem em cima de vantagem.
Agora, por favor, pratiquem.
(Dogen, Eihei Koroku, Fala do Salão do Dharma #32)