03 junho 2010
Fukanzazengi - 2º comentário de Coupey (2ª parte)
Entre todos os budas, nos três mundos (passado, presente e futuro), nenhum sabe que tem a natureza buda. Mas os gatos e as vacas sabem muito bem.Não se trata de um koan, mas simplesmente de uma maneira metafórica de falar. Isso quer dizer que um buda (isto é, um homem desperto) não pensa se tem ou não a natureza de buda. Aquele que é desperto não pensa, “Eu, eu sou desperto, ele não é” – este é o pensamento do homem não desperto. “Mas os gatos e as vacas sabem muito bem”. Apenas os animais, apenas o espírito da ilusão, assim pensam.
A primeira vez em que me confrontei com essa maneira de ver, fiquei fortemente tocado. Pois isso queria dizer para mim que aqueles que praticam zazen não são melhores que os outros – “melhores” no sentido de que nós que praticamos obteríamos aquilo que os outros não podem obter... Algumas pessoas vão logo se dizer, “Mas, nesse caso, porque fazer zazen?” Um dia, durante um sesshin no Vale de Isère, Mestre Deshimaru havia dito algo semelhante. Um praticante se levantou em pleno meio do zazen e gritou, “Então, porque fazer zazen?! Para mim acabou, não sou idiota como vocês!” E partiu batendo a porta. Este é o espírito comum. Esse doutor pensava que era necessário, para praticar o Caminho, procurar ou criar qualquer coisa nova. Isso é falso. Tudo já está aí.
Esse é um ponto muito importante, mesmo no zen soto. Muitas escolas soto praticam o samadhi para alcançar o despertar, enquanto na nossa prática, ensina-se que o zazen e o satori são uma mesma coisa. É o zen imediato, o despertar imediato, sem graus, sem progressão, sem escalas, sem etapas, livre de todo entrave. O momento presente. A prática torna-se ela mesma realização, subitamente. Subitamente unidade. Assim, com as primeiras frases do Fukanzazengi, Mestre Dogen começa direto no cume da montanha. Não há progresso a fazer, ele nos diz. Não há montanhas a escalar, uma após a outra. Nada a subir. Mas isso não quer dizer que nada se passe: o espírito muda, é tudo.
A primeira vez em que me confrontei com essa maneira de ver, fiquei fortemente tocado. Pois isso queria dizer para mim que aqueles que praticam zazen não são melhores que os outros – “melhores” no sentido de que nós que praticamos obteríamos aquilo que os outros não podem obter... Algumas pessoas vão logo se dizer, “Mas, nesse caso, porque fazer zazen?” Um dia, durante um sesshin no Vale de Isère, Mestre Deshimaru havia dito algo semelhante. Um praticante se levantou em pleno meio do zazen e gritou, “Então, porque fazer zazen?! Para mim acabou, não sou idiota como vocês!” E partiu batendo a porta. Este é o espírito comum. Esse doutor pensava que era necessário, para praticar o Caminho, procurar ou criar qualquer coisa nova. Isso é falso. Tudo já está aí.
Esse é um ponto muito importante, mesmo no zen soto. Muitas escolas soto praticam o samadhi para alcançar o despertar, enquanto na nossa prática, ensina-se que o zazen e o satori são uma mesma coisa. É o zen imediato, o despertar imediato, sem graus, sem progressão, sem escalas, sem etapas, livre de todo entrave. O momento presente. A prática torna-se ela mesma realização, subitamente. Subitamente unidade. Assim, com as primeiras frases do Fukanzazengi, Mestre Dogen começa direto no cume da montanha. Não há progresso a fazer, ele nos diz. Não há montanhas a escalar, uma após a outra. Nada a subir. Mas isso não quer dizer que nada se passe: o espírito muda, é tudo.
25 maio 2010
Fragmento de um Teisho de Kodo Sawaki Roshi
..................................Há muito tempo atrás, eu viajava de trem pela região de Kansai. Lembro-me que lia um artigo no jornal local sobre a grande quantidade de sardinhas pescadas no mar de Isu e o que era feito delas. Havia uma foto de uma praia coberta de sardinhas.
As sardinhas são consideradas um peixe muito ordinário porque há grandes quantidades delas em nossos mares. Se elas fossem pescadas apenas uma vez por ano, estou certo de que elas seriam consideradas uma grande iguaria. As trutas, por outro lado, são consideradas um luxo por serem muito raras.
Uma vez juntei-me a alguns pescadores no rio Tamagawa e não vi nenhuma truta pendurada em seus anzóis. As sardinhas nadam em cardumes e com um lançar da rede, voce pode pegar um monte delas. Elas são transportadas por caminhões, salgadas, secas e enlatadas. As sardinhas que sobram são usadas como fertilizantes. Nós não temos muita consideração com esses peixes, mas eles são realmente muito saborosos. De fato, elas seriam consideradas muito melhores se elas fossem mais raras.
Bom e mau são conceitos relativos que não existem realmente. O mesmo pode ser dito sobre verdades e ilusões. O bom não poderia existir sem o mau. É simplesmente o karma do homem que gera o dualismo e determina o que é bom e o que é mau.
...............................
Há mal dentro do bem e há bem dentro do mal. Bem e mal em si mesmos não existem realmente. O comentário de Shinran é evidente:
Não se deve encontrar virtude na glória, nem temer o mal.
Cada homem e todos os homens não são nem bons nem maus.
23 maio 2010
Fukanzazengi - 2º comentário de Coupey (1ª parte)

O Caminho é fundamentalmente perfeito. Ele tudo penetra. Como poderia depender da prática e da realização? O veículo do Dharma é livre e desimpedido de qualquer obstáculo. Em que o esforço humano concentrado se faz necessário?
Aqui o Mestre Dogen coloca uma questão essencial: já que o Caminho é fundamentalmente perfeito e que tudo penetra, porque seria necessário praticar?
Mestre Dogen certamente conhecia o mondo que teve lugar entre o Mestre Eno e um monge nos anos 700 na China. O monge pergunta a Eno:
- Hoje em dia, todos os mestres chan dizem que se alguém deseja realizar o Caminho, deve praticar dhyāna (isto é, zazen) e samādhi. Estais de acordo?
- O Caminho depende do despertar do espírito. Como poderia depender do zazen?, responde Eno.
O Caminho, nos diz Dogen, não depende nem da prática nem do satori de Buda ou dos outros mestres. Não se escuta isto frequentemente nas diferentes escolas budistas, na realidade, escuta-se mais o contrário... Por outro lado, reencontra-se essa maneira de se expressar – ‘não temos necessidade de praticar para obter o despertar’ – entre os eruditos e os especialistas do budismo. Para eles, não teríamos necessidade de praticar porque já estamos despertos. Pode-se assim constatar, quando se toma um livro traduzido por um erudito, e certamente com eficácia, que ele dedica frequentemente seu livro não ao seu mestre, porque ele não tem, mas a Eno, o sexto patriarca. Por quê? Precisamente porque Eno afirma que o despertar não depende do zazen.
As pessoas impressionadas por essa resposta tomam-na imediatamente, e essa interpretação acomoda-as e lhes permite não mover suas nádegas... É verdade que a longo prazo a prática nem sempre é fácil, sobretudo quando se realiza que é preciso praticar com os outros – o que fizeram em toda sua vida o Mestre Deshimaru e o Xaquiamuni Buda, para citar apenas esses. Mas seria necessário tentar compreender profundamente o que Eno e Dogen queriam dizer. Pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida sobre a absoluta necessidade da prática do sentar-se diante de uma parede, sem finalidade, sem objeto. E, se o Caminho não depende nem da prática nem do satori, é que, para mim, o Caminho já existe em nós mesmos. Não nos outros. Não em outro lugar. Aquilo que Dogen e Eno querem dizer é: porque seria necessário acrescentar o que quer que seja a nós mesmos, ao nosso ego? O Caminha tudo penetra, logo não há nenhuma necessidade de procurar o satori.
Mestre Dogen, ainda um simples praticante no templo Tendai no Monte Hiei, tinha suas dúvidas. Ele era muito jovem e seguia o Mestre Koin, abade de um templo Tendai. Naquela época ele não pensava, como escreveria mais tarde, que “o Caminho é fundamentalmente perfeito” e que “ele tudo penetra”. Ele pensava a partir do espírito mais comum – o espírito daquele que se engaja na prática pela primeira vez (sotapanna – “aquele que entrou na corrente”).
Um dia, Dogen perguntou ao abade:
- Já que os sutras dizem que todos os seres humanos têm a natureza Buda, porque é preciso praticar esse zazen tão difícil? Já que todos têm essa natureza, porque há necessidade de realizá-la, de atingir o satori?
O abade nada disse, não sabendo o que responder. Talvez não tivesse nada a dizer. Dogen ficou muito decepcionado com seu silêncio. Algum tempo depois, o abade lhe disse:
- Dogen, é preciso que vás ver o mestre rinzai Eisai, ele é mais dotado do que eu, ele poderá te responder.
Dogen então partiu ao encontro de Eisai, com a única intenção de lhe colocar a questão. Ao fim de uma árdua viagem, ele encontra Eisai e lhe pergunta:
- Porque praticar já que todos têm, desde o início, a natureza de Buda?
E Eisai lhe responde:
- Entre todos os budas, nos três mundos (passado, presente e futuro), nenhum sabe que tem a natureza buda. Mas os gatos e as vacas sabem muito bem.
Mestre Dogen certamente conhecia o mondo que teve lugar entre o Mestre Eno e um monge nos anos 700 na China. O monge pergunta a Eno:
- Hoje em dia, todos os mestres chan dizem que se alguém deseja realizar o Caminho, deve praticar dhyāna (isto é, zazen) e samādhi. Estais de acordo?
- O Caminho depende do despertar do espírito. Como poderia depender do zazen?, responde Eno.
O Caminho, nos diz Dogen, não depende nem da prática nem do satori de Buda ou dos outros mestres. Não se escuta isto frequentemente nas diferentes escolas budistas, na realidade, escuta-se mais o contrário... Por outro lado, reencontra-se essa maneira de se expressar – ‘não temos necessidade de praticar para obter o despertar’ – entre os eruditos e os especialistas do budismo. Para eles, não teríamos necessidade de praticar porque já estamos despertos. Pode-se assim constatar, quando se toma um livro traduzido por um erudito, e certamente com eficácia, que ele dedica frequentemente seu livro não ao seu mestre, porque ele não tem, mas a Eno, o sexto patriarca. Por quê? Precisamente porque Eno afirma que o despertar não depende do zazen.
As pessoas impressionadas por essa resposta tomam-na imediatamente, e essa interpretação acomoda-as e lhes permite não mover suas nádegas... É verdade que a longo prazo a prática nem sempre é fácil, sobretudo quando se realiza que é preciso praticar com os outros – o que fizeram em toda sua vida o Mestre Deshimaru e o Xaquiamuni Buda, para citar apenas esses. Mas seria necessário tentar compreender profundamente o que Eno e Dogen queriam dizer. Pessoalmente, não tenho nenhuma dúvida sobre a absoluta necessidade da prática do sentar-se diante de uma parede, sem finalidade, sem objeto. E, se o Caminho não depende nem da prática nem do satori, é que, para mim, o Caminho já existe em nós mesmos. Não nos outros. Não em outro lugar. Aquilo que Dogen e Eno querem dizer é: porque seria necessário acrescentar o que quer que seja a nós mesmos, ao nosso ego? O Caminha tudo penetra, logo não há nenhuma necessidade de procurar o satori.
Mestre Dogen, ainda um simples praticante no templo Tendai no Monte Hiei, tinha suas dúvidas. Ele era muito jovem e seguia o Mestre Koin, abade de um templo Tendai. Naquela época ele não pensava, como escreveria mais tarde, que “o Caminho é fundamentalmente perfeito” e que “ele tudo penetra”. Ele pensava a partir do espírito mais comum – o espírito daquele que se engaja na prática pela primeira vez (sotapanna – “aquele que entrou na corrente”).
Um dia, Dogen perguntou ao abade:
- Já que os sutras dizem que todos os seres humanos têm a natureza Buda, porque é preciso praticar esse zazen tão difícil? Já que todos têm essa natureza, porque há necessidade de realizá-la, de atingir o satori?
O abade nada disse, não sabendo o que responder. Talvez não tivesse nada a dizer. Dogen ficou muito decepcionado com seu silêncio. Algum tempo depois, o abade lhe disse:
- Dogen, é preciso que vás ver o mestre rinzai Eisai, ele é mais dotado do que eu, ele poderá te responder.
Dogen então partiu ao encontro de Eisai, com a única intenção de lhe colocar a questão. Ao fim de uma árdua viagem, ele encontra Eisai e lhe pergunta:
- Porque praticar já que todos têm, desde o início, a natureza de Buda?
E Eisai lhe responde:
- Entre todos os budas, nos três mundos (passado, presente e futuro), nenhum sabe que tem a natureza buda. Mas os gatos e as vacas sabem muito bem.
03 maio 2010
Fukanzazengi - 1º comentário de Coupey
O Caminho tudo penetra porque está por toda a parte: o Dharma está por toda a parte – o Caminho, o Dharma, é a mesma coisa. Poder-se-ia dizer igualmente: “a natureza de buda está por toda a parte”: sob os pés de um mestre zen, sob os pés de um assassino, a despeito de toda razão humana. Mesmo o pior dos assassinos não está privado de Dharma. Eis o grande Caminho, largo, generoso, nem difícil nem fácil, sem medida. Uma frase retirada de um poema de Wanshi ecoa essa ideia, eu dela me sirvo às vezes como um mantra: “Todo o universo cintila e prega o Dharma”.
01 março 2010
26 fevereiro 2010
COMO SENTAR EM ZAZEN




As roupas devem ser do tipo folgadas, mas bem arrumadas. Em seguida, coloca-se a mão direita no pé esquerdo, e a palma esquerda em cima da palma direita, com as pontas dos polegares se tocando de leve. Sentemo-nos perfeitamente eretos, nem inclinados para a esquerda, nem para a direita, nem para frente, nem para trás. Nossos ouvidos devem estar no mesmo plano que nossos ombros e os nossos narizes alinhados com o umbigo.
Seu cinto ou faixa não devem estar apertados. Na linhagem Sotom a maneira comum de dispor as mãos é com a mão direita debaixo da esquerda. Na linhagem Rinzai e outras, há maneiras ligeiramente diferentes de dispor as mãos. As estátuas de Buda frequentemente mostram a mão esquerda embaixo e a direita em cima. Em resumo, é correto interpretar essas orientações como querendo dizer que devemos posicionar nossas mãos de um modo arrumado e ordeiro.
Sentem-se com a coluna perfeitamente ereta. Não incline sua coluna nem deixe sua cabeça cair. Porque é preciso entrar em tantos detalhes na forma? Perguntem ao Mestre Dogen. Quando seu nariz e o umbigo estão alinhados em linha reta, vocês não estão adernados para nenhum lado.
Sentem-se com a coluna perfeitamente ereta. Não incline sua coluna nem deixe sua cabeça cair. Porque é preciso entrar em tantos detalhes na forma? Perguntem ao Mestre Dogen. Quando seu nariz e o umbigo estão alinhados em linha reta, vocês não estão adernados para nenhum lado.
A língua deve estar colocada contra o céu da boca, e os lábios e dentes firmemente cerrados. Com os olhos continuamente mantidos abertos.
Quando vocês estiverem sentando, mantenham suas bocas fechadas. Não é preciso manter sua língua em nenhuma posição especial, deixem-na em seu lugar natural. Se vocês mantiverem seus olhos abertos, podem precisar piscar muito e também é mais fácil se distraírem. È melhor deixarem seus olhos semiabertos, nem completamente abertos nem fechados.
Há um ponto em que vocês devem tomar muito cuidado. Alguns praticantes ficam querendo concentrar sua energia para que ela flua do topo da cabeça para os quadris. Hoje em dia a palavra “energia” é usada com frequência e as pessoas pensam que elas devem colocar a “energia” em algum lugar em particular. Mas se vocês dirigirem a energia de certo modo, isto significa que a consciência está acompanhando a sua maneira de sentar. Isto quer dizer que a direção de seu zazen está muito diferente da forma indicada por Dogen. Ele disse que a forma verdadeira do zazen é “sem forma”.
Dogen repetidamente detalhou instruções de como sentar ereto, com as costas eretas e a cabeça ereta, sem dirigir a energia para nenhum lugar em particular. Dessa forma é possível respirar mais natural e confortavelmente.
Há um ponto em que vocês devem tomar muito cuidado. Alguns praticantes ficam querendo concentrar sua energia para que ela flua do topo da cabeça para os quadris. Hoje em dia a palavra “energia” é usada com frequência e as pessoas pensam que elas devem colocar a “energia” em algum lugar em particular. Mas se vocês dirigirem a energia de certo modo, isto significa que a consciência está acompanhando a sua maneira de sentar. Isto quer dizer que a direção de seu zazen está muito diferente da forma indicada por Dogen. Ele disse que a forma verdadeira do zazen é “sem forma”.
Dogen repetidamente detalhou instruções de como sentar ereto, com as costas eretas e a cabeça ereta, sem dirigir a energia para nenhum lugar em particular. Dessa forma é possível respirar mais natural e confortavelmente.
(Quinta parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)
08 fevereiro 2010
Geralmente um acolchoado quadrado é colocado no chão onde sentamos, e em cima disso é colocado uma almofada redonda. É possível sentar seja na posição de lótus, ou meio lótus. Na primeira, coloca-se o pé direito na coxa esquerda, e em seguida coloca-se o pé esquerdo na coxa direita. Naquela última, apenas se coloca o pé esquerdo na coxa direita.
Aqui se iniciam as instruções detalhadas de como sentarmos. Nós nos sentamos numa almofada redonda, que chamamos de zafu. Usamos isto para que nossas pernas não comecem a doer. Quando se sentarem no zafu, por favor, façam-no com as costas eretas.
O meio lótus é a metade do lótus completo, por isto só elevamos a perna esquerda. Mas não é preciso agarrar-se a esta forma. Se as suas pernas começarem a doer, não há problema em trocar e colocar a o pé direito na coxa esquerda. Também não há problema em sentar-se como as mulheres frequentemente se sentam no Japão, com os pés dobrados sob elas. Ou usar vários tipos de assentos ou bancos. De qualquer modo, não se preocupem muito com a forma exterior. Eu gostaria apenas que encontrassem uma posição na qual se sentissem confortáveis sentando por um longo tempo, sem que sentissem muitas dores nas suas pernas.
Em alguns dos maiores mosteiros no Japão, se um monge não consegue sentar-se em zazen em lótus completo, não se permite que ele lá permaneça. Em anos recentes, percebeu-se que isto era um erro e, lentamente, as coisas começaram a mudar. Eu acho que isso é bom.
Além do Fukanzazengi e o Gakudo-yojinshu (Pontos a observar na prática do Caminho), Dogen escreveu uma peça chamada o Fushuko-hampo (Regras para comer no mosteiro), que explica em detalhes o modo de comer. Ele também escreveu o Eihei-shingi (Regras para a vida monástica), que descreve em detalhes a maneira de escovar os dentes, lavar a boca, a cara e, até mesmo, como usar o banheiro. Com frequência, ouvimos pessoas que pensam que a prática budista implica em seguir fielmente as regras prescritas por Dogen. Esta é uma grande interpretação errônea. Isto é um modo de praticar estreito, militarista. Há, talvez entre nós, pessoas que pensam que a prática significa aderir estritamente à forma, sem qualquer desvio que seja. Elas podem gostar de fazer isto dessa forma e pensar que não pode ser feito de qualquer outro modo. Eu gostaria que vocês compreendessem, entretanto, que isto está ocorrendo num contexto onde o verdadeiro zazen e o verdadeiro Dharma desapareceram. Por esta razão, apenas a forma é enfatizada e rigidamente seguida.
Se há entre nós quem esteja planejando construir uma sala de meditação e treinar monges no futuro, penso que seria uma boa ideia manterem em suas mãos para referência o Fukanzazengi, o Gakudo-yojinshu e o Eihei-shingi. Aqueles entre vocês que experimentaram vida em grupo estão cientes da necessidade de regras. Antigos praticantes estão familiarizados com as regras do zendo e podem se mover e agir livremente sem que se sintam presos a regras. Sem regras, a vida em grupo torna-se desordenada. Por favor, entendam, então, que as regras são necessárias para a vida em grupo.
O meio lótus é a metade do lótus completo, por isto só elevamos a perna esquerda. Mas não é preciso agarrar-se a esta forma. Se as suas pernas começarem a doer, não há problema em trocar e colocar a o pé direito na coxa esquerda. Também não há problema em sentar-se como as mulheres frequentemente se sentam no Japão, com os pés dobrados sob elas. Ou usar vários tipos de assentos ou bancos. De qualquer modo, não se preocupem muito com a forma exterior. Eu gostaria apenas que encontrassem uma posição na qual se sentissem confortáveis sentando por um longo tempo, sem que sentissem muitas dores nas suas pernas.
Em alguns dos maiores mosteiros no Japão, se um monge não consegue sentar-se em zazen em lótus completo, não se permite que ele lá permaneça. Em anos recentes, percebeu-se que isto era um erro e, lentamente, as coisas começaram a mudar. Eu acho que isso é bom.
Além do Fukanzazengi e o Gakudo-yojinshu (Pontos a observar na prática do Caminho), Dogen escreveu uma peça chamada o Fushuko-hampo (Regras para comer no mosteiro), que explica em detalhes o modo de comer. Ele também escreveu o Eihei-shingi (Regras para a vida monástica), que descreve em detalhes a maneira de escovar os dentes, lavar a boca, a cara e, até mesmo, como usar o banheiro. Com frequência, ouvimos pessoas que pensam que a prática budista implica em seguir fielmente as regras prescritas por Dogen. Esta é uma grande interpretação errônea. Isto é um modo de praticar estreito, militarista. Há, talvez entre nós, pessoas que pensam que a prática significa aderir estritamente à forma, sem qualquer desvio que seja. Elas podem gostar de fazer isto dessa forma e pensar que não pode ser feito de qualquer outro modo. Eu gostaria que vocês compreendessem, entretanto, que isto está ocorrendo num contexto onde o verdadeiro zazen e o verdadeiro Dharma desapareceram. Por esta razão, apenas a forma é enfatizada e rigidamente seguida.
Se há entre nós quem esteja planejando construir uma sala de meditação e treinar monges no futuro, penso que seria uma boa ideia manterem em suas mãos para referência o Fukanzazengi, o Gakudo-yojinshu e o Eihei-shingi. Aqueles entre vocês que experimentaram vida em grupo estão cientes da necessidade de regras. Antigos praticantes estão familiarizados com as regras do zendo e podem se mover e agir livremente sem que se sintam presos a regras. Sem regras, a vida em grupo torna-se desordenada. Por favor, entendam, então, que as regras são necessárias para a vida em grupo.
(Quarta parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)
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