24 fevereiro 2008

Hokyo Zanmai - 5º Comentário de Deshimaru

Afastar-se ou tocar:
ambos estão errados.
Pois é como um grande fogo,
útil, mas perigoso.
"Se quisermos tocar ou pegar
Um gato,
O gato escapará..."
Mas ao contrário, se aborrecermos o gato, ele escapará do mesmo modo.
"Nem uma nem outra coisa valem". Igualmente:
"Amada em demasia, a mulher escapa...
Pouco amada, também escapa!"
É um problema de consciência inerente ao nosso espírito, é o problema do grande fogo:
"Se o tocarmos, nos queima.
Se dele nos afastarmos,
Sentimos frio".
A consciência durante o zazen é um ponto essencial e difícil.
Em que consiste o estado de Hishiryo? Qual é a verdadeira concentração? Repito sempre: "mushotoku", "inconscientemente"... "naturalmente", "automaticamente". À direita, à esquerda... fica difícil escolher. Limitar, fechar em categorias, é cair na contradição. Não há que buscar o satori nem querer cortar as ilusões. Tudo deve ser natural, automático, insconsciente. Quando se faz zazen, pode-se alcançar esse estado de espírito.
Em que consiste "isto"? É o dharma. O dharma é um grande fogo, a verdade, samadhi do espelho precioso: zazen, satori. Desta forma, não devemos fugir do satori, nem tocá-lo. Não devemos nos perder. Isto não se aplica somente ao satori, mas a todos os princípios de nossa vida.
O que é o Caminho do Meio? Qual o segredo das Artes Marciais?
"Não há
que perseguir as coisas
nem recusá-las".
Não pensar na vitória nem na derrota em sua prática é a grande contradição das Artes Marciais, mas também é o seu segredo.
Fica difícil expressar-se, dar a resposta correta apenas com palavras.
Uma história japonesa: Uma noite, um homem visita seu amigo. O amigo diz ao abrir a porta:
- Olá, Yoshiko!
O homem lhe responde:
- Mas porque me chamas de Yoshiko?
O outro argumenta:
- Se não és Yoshiko... serás talvez Kushiko?
Silêncio.
- Então quem és?
- Eu sou eu - replica o outro.
Nem o passado nem o futuro devem influenciar nossos pensamentos. Seria inútil. Vosso pensamento é um "aqui e agora". "Aqui e agora" é a vossa liberdade.
Este é o "ponto médio".
Tocar: se um homem deseja uma mulher abertamente ou rapidamente em demasia, perdê-la-á.
Nem tocar, nem deixar de tocar: o verdadeiro amor. Não é fácil.
No zazen, o excesso de pensamentos ou o torpor, são atitudes falsas. Então, o que fazer? Os pensamentos não devem vir da consciência pessoal, mas serem inconscientes, naturais, automáticos. Quereis obter o satori, a verdade: o grande fogo se aproxima demais e queima. Fugis do satori, da verdade: o fogo se afasta demais e sente-se frio. O Caminho do Meio, nem à direita, nem à esquerda, é um caminho difícil, que implica no abandono de todas as noções contraditórias.
Eis aqui a história de Tokujo, o barqueiro, e de seu discípulo Kassan. Durante vinte anos Tokujo foi instruído pelo Mestre Tosen, praticando zazen com ele. Antes de morrer, Tosen lhe deu o shiho. Então Tokujo se fez barqueiro e durante trinta anos ficou aguardando o verdadeiro discípulo. O poema diz:
"Queria pescar um grande peixe,
mas ninguém nadava
naquelas águas demasiadamente puras".
Para fazer suas varas de pescar, havia cortado todos os bambus do mato e se dispunha a replantá-los quando, um dia, um homem chamado Kassan chegou às margens do rio. Imediatamente Tokujo compreendeu que aquele homem era "o" grande peixe.
- De onde vens?
- Não venho de nenhuma parte.
O discípulo parecia interessante.
- Quem te educou?
- Zazen me educou.
Ocorreu um grande mondo. Tokujo queria conhecer a fundo o novo discípulo e, à guisa de resposta às palavras de Kassan, Tokujo o jogava na água a cada vez.
- Tuas respostas, ainda que sejam exatas, não são corretas, é o mesmo que golpear um burro.
E, com um pontapé, Tokujo jogava Kassan na água. Quando Kassan abria a boca para responder, Tokujo gritava:
- Não quero discutir contigo!
E plof!... voltava a jogá-lo na água.Kassan obteve um grande satori. Então Tokujo o retirou da água e, docemente, tomou sua mão.
"Faz trinta anos que aguardo este momento!
Hoje um grande peixe fisgou o anzol!
Minha pesca, portanto, terminou".
Tokujo transmitiu o shiho a Kassan e lhe deu seu kesa. Imediatamente a chalana virou e Tokujo morreu. As histórias da transmissão são sempre singulares. Kassan, o grande peixe, chegou a ser um grande Mestre Zen.
Qual o verdadeiro sentido dessa história? Porque responder com uma linguagem complicada? Uma só palavra e um só gesto bastam. É preciso responder mas sem servir-se da linguagem. Pois, ainda que seja uma resposta exata, nunca será correta. Inclusive sem ser adequada... Kassan foi jogado na água. Ele "bebeu no copo". Realizou sua própria natureza. Satori. E o Mestre, morto, fundiu-se com o rio. Zazen, ele mesmo, é o grande fogo do Hokyo Zanmai. Isto não se explica com a linguagem. É o shin den shin de Tokujo a Kassan.

18 fevereiro 2008

Hokyo Zanmai - 4º Comentário de Deshimaru

Se as seguirdes [as palavras], sereis pegos em armadilhas,

se as negligenciardes, tombareis na dúvida.

As palavras do Mestre não tocam o discípulo ao qual falta profundidade. Do mesmo modo, o Mestre que duvida demais de seu discípulo não poderá transmitir-lhe seus ensinamentos. Devemos possuir a compreensão além das palavras. Este é o ensinamento desse quarto poema. Pelas palavras, compreender o que é a consciência. O importante é o que se quer dizer, não o que se diz. A maior parte das pessoas, escravas das palavras, aí se deixam capturar.
No mondo, a resposta do Mestre não é uma resposta como de um exame. O Mestre deve ter uma compreensão completa do discípulo, compreender seu estado de consciência pela cor de seus olhos, de seu rosto, compreender por intuição...
Se somos perturbados pelas palavras, não podemos sentir o verdadeiro estado de consciência escondido por detrás delas e caímos em armadilhas. Se duvidarmos dessas palavras, chegamos ao impasse do ceticismo. A importância essencial do mondo vem da colocação em prática desses pontos.
Compreender a consciência de nosso interlocutor... Se o Mestre se deixa perturbar pelas palavras de seu discípulo, não pode compreender sua vontade nem sua consciência. Durante uma conversa, devemos ser capazes de apreender o pensamento de nosso interlocutor, ler em seu cérebro, sem ser influenciado por suas palavras. O Mestre Zen compreende desde a primeira palavra, e pelo tom da voz. A linguagem não é tão importante. Algumas pessoas só se expressam em linguagem diplomática. Elas se escusam... elas se escusam, e seu espírito escapa. A linguagem pode terminar em vã discussão. Por isto o Mestre Zen tem sempre um bastão!
Não deixar traços pela linguagem.
O silêncio é o que há de melhor.

07 fevereiro 2008

Hokyo Zanmai - 3º Comentário de Deshimaru

Seu sentido não está nas palavras,
mas um instante decisivo o faz aparecer.


Este poema expõe as diferenças entre a consciência e a linguagem. Nossa consciência difere de nossa linguagem, da maneira de nos expressarmos. Se queremos beber um café ou comer um bolo, pedimos ao garçom o que queremos. O garçom, não comete, por assim dizer, nenhum erro, e para isso as palavras bastam. Mas no Zen, dizer, "tomemos um chá", pode tornar-se um koan e encobrir um significado profundo. Em um templo Zen, se um Mestre nos pede para sentarmo-nos, este "sentem-se", dito pelo Mestre, pode ser um koan em si mesmo. Um outro exemplo: o kwatz dos Mestres Zen está muito longe do canto dos corvos. Nos templos Zen, durante os mondos, o Mestre pronuncia às vezes a palavra kwatz ou a palavra to, "silêncio".
No Zen, uma linguagem verdadeira, exata e simples, se cria. Esta linguagem é como os sons dos templos: sino do despertar, madeira dos chamados, som das claquetes, madeira do mokugyo, gongo, tambor do samu, metal da cozinha. Criam-se sons e, às vezes, essa linguagem pode ser poema ou canto. Assim, alguns sutras tornam-se poemas, como o Shin jin Mei, o Hokyo Zanmai e o Shodoka, mas a verdadeira essência do espírito não pode ser expressa em palavras. Os mudos não podem falar e, apesar disso, podem explicar de um modo profundo sua consciência e seu espírito. Se sentem necessidade, fazem gestos. No Zen também, encontram-se muitos gestos! O que é o Zen? Um estalar de dedo!
Os haikai japoneses não são verdadeiramente poemas, mas frases de Zen, sentenças breves. Expressar a natureza, a estação, ao ritmo de 5-7-5, em francês ou português, torna-se praticamente impossível. Eis aqui um haikai:
"Um velho charco
Uma rã mergulha
O ruído da água".

Este poema tão pequeno, muito profundo, tem apenas três versos.

Mestre Bassho, ao visitar um velho templo, ficou muito impressionado por uma cena de uma calma profunda:
"Um velho charco, a floresta, o zazen do monge
no dojo e, subitamente, nesta

agradável tarde de primavera,
uma rã salta na água.
Plof!"

O som da água rompeu a imobilidade da atmosfera!

E, após o mergulho da rã, tudo voltou ao silêncio!

O sentido profundo desse haikai é o silêncio perfeito. Açambarcados pela vida quotidiana, não podemos sentir nem os barulhos nem o verdadeiro silêncio.
Mas, pela prática do Zen, podemos experimentar esse verdadeiro silêncio
Esse poemas Zen atingem uma grande profundidade. Matéria do não-consciente, os versos, autênticos, surgem anteriores à nossa vida e nossa morte, eles vêm do túmulo, anteriores à matéria, ao espírito, e compreendem o cosmo ilimitado, infinito, eterno. O silêncio é tudo e vem automaticamente, naturalmente, inconscientemente.
No templo de Avallon, compus estes haikai:
"Após o zazen
Queimo algum incenso
Uma noite de primavera".

"Sob as nuvens sem consciência
Revolvo a terra do campo e semeio o grão
Próximo à aldeia do moinho".

Como na pintura sumi-e deve-se compreender o espaço, durante uma conversa devemos integrar o silêncio.
"Sobre a areia da praia,
Traços de passos.
Longo é o dia da primavera".


Uma peça muito decorada torna-se pesada, enquanto uma peça sóbria é sinal de pura beleza. Assim , no haikai, como nas respostas do mondo, a expressão deve ser breve. Durante o mondo, às vezes, há apenas uma palavra em minhas respostas: "Não!", "Concordo!", ou então dou uma longa explicação. Um Mestre pode responder com o kwatz ou com as mãos dando uma bofetada. Mas, em todos os casos, o sentido da resposta é muito profundo.


Eis aqui um outro haikai de Bassho:

"Silêncio
A voz da cigarra
Penetra a rocha".

É o sabor do Zen. Se vocês considerarem apenas as palavras, o alcance é bem curto.
"Tranquilidade.
Uma folha do castanheiro cai
Na água clara".

É preciso ir por detrás das palavras. Está dito no Zazenshin:
Tori Tonde Tori No Gotoshi
"O pássaro voa no céu,
Ele tem a verdadeira liberdade do pássaro".

27 janeiro 2008

Hokyo Zanmai - 2º Comentário de Deshimaru


Uma bandeja de prata cheia de neve branca,
uma garça coberta pela luz da lua,

parecem-se, mas não são iguais.
Juntando-as, sabemos que são.


Neste segundo poema, Mestre Tozan explica em profundidade o que é o dharma. A neve, a bandeja de prata, a garça branca e a luz da lua são diferentes.

No San Sho Do Ei, Mestre Dogen escreveu este poema:
"A neve cai sobre as folhas ruivas.
O longo mês do outono.
Quem pode exprimir esta cena com palavras?"
Não são apenas a neve ou as folhas ruivas que são belas. A neve e as folhas ruivas são belas conjuntamente. A neve branca é verdade, essência (ku), as folhas ruivas são fenômenos, diferenciação. Os nomes nada mais são que pseudônimos: neve, garça, luz da lua. Não são a essência. Devemos encontrar a essência, o ku, mas, para isto, é preciso que encontremos os fenômenos.
Vocês se opõem sem cessar: "Se fulano é bom, eu não sou bom. Se sou bom, então ele não é bom, ele se engana! Porque ele e eu nada mais somos que homens comuns". A luta se faz a partir das diferenças, mas, em ku, não há diferenças.

19 janeiro 2008

Hokyo Zanmai - 1º Comentário de Deshimaru

Assim é o Dharma
que os Budas e os Patriarcas
transmitiram intimamente.
Agora que o tendes,
protegei-o bem.


Este poema trata do dharma que é o ensinamento absoluto do Buda, verdade cósmica. O dharma absoluto, sem erro, é zazen. O Buda e todos os mestres transmitiram esse dharma em silêncio. Os sutras, os koans, as conferências, as palavras são meios, mas, em última instância, não há necessidade de nada. O espírito do discípulo e o espírito do mestre devem harmonizar-se, comunicar-se. As duas consciências se fundem.
"A cada dia meu espírito e teu espírito se comunicam,

minha consciência e a tua consciência também.

Eles não esquecem.

Eles são infinitos.

E, dia após dia,

minha consciência e tua consciência,

meu espírito e teu espírito,

se observam um no outro".
Tal é o ensinamento do Mestre a seu discípulo, sem fim, eterno.

Nos sutras, o monge Zen fala com uma linguagem sem osso. Isto significa que ele deve falar em todas as direções, abraçando as contradições.

Também está escrito no Shin Jin Mei:

"A fé é sem dualidade,

a não-dualidade é a fé".

Mestre Tozan encontrou, ao caminhar pelas montanhas, um eremita vivendo em uma pequena cabana. Perguntou-lhe as razões de sua vida naquela solidão. O eremita respondeu-lhe, "Em outro tempo, vi duas vacas que brigavam. Elas entraram no mar e desapareceram, as duas afogadas". Nada de oposição, nada de dualismo em nossa vida.

As conferências do Buda, os sutras, os koans falam do dharma, mas, ao fim e ao cabo, há apenas uma verdade absoluta: zazen. Algumas pessoas não praticam o zazen e discutem sobre o Zen e o budismo. São comparáveis ao gato que brinca com uma pedra preciosa ou ao bebê que se diverte com um monstro. Se conseguimos retirar as amparas em zazen, podemos descubrir a estrutura. Esse é o samadhi do Hokyo Zanmai, o s Espelho do Tesouro, segredo do Zen, essência do budismo.

Continuar o zazen aqui e agora...

Quando o Mestre Dogen voltou da China, abriu um dojo em Uji, no templo de Koshoji, e disse: "Voltei ao Japão sem nada, com as mãos vazias. Nada tenho sobre o budismo". E concluiu com esta frase célebre: "Uma vez, em quatro anos, na única manhã do décimo mês lunar, o galo cantou".


21 dezembro 2007

A Palavra Aberta de Lo-Chan

O senhor Min Wang mandou construir um mosteiro para Lo Chan e lhe pediu que pronunciasse o primeiro sermão na sala de reuniões. Enquanto mestre daquela instituição, Lo Chan sentou-se numa cadeira e não pronunciou uma só palavra, se é que isto não é "adeus", antes de regressar a seu quarto. O senhor Min Wang aproximou-se e disse-lhe:

- Nem mesmo o sermão de Buda na montanha de Gradharkuta conseguiu ultrapassar o que ensinastes hoje.

- Pensava que fostes estranho ao zen, mas descubro agora que sabeis alguma coisa, respondeu L0 Chan.

Comentário de Nyogen: Esses dois homens viviam na China no século VIII, mas revelam ainda hoje - com que perfeição! - a beleza da incompletude àqueles que sabem apreciar as coisas interiores. Habitualmente, em um templo budista, encontra-se uma estátua de Buda sobre o altar. Mas um verdadeiro templo zen não possui nenhuma imagem. Um mestre toma o lugar de Buda, e se serve do altar como uma cátedra. Carrega consigo o manto que sua genealogia lhe legou, veste-o antes de seu sermão e despe-se imediatamente depois. Nosso Lo Chan deve ter feito o mesmo. O original chinês diz, "Ele ganhou seu assento, vestiu seu manto, levantou-se e disse 'adeus'. E este foi o fim de seu sermão". Que justeza na ação! Mas sobretudo, que nenhum noviço venha a imitá-lo! Isto seria pior do que venerar uma estátua de Buda. A iconoclastia, quando é apenas uma reação, acaba por aprisioná-lo numa torre de marfim. Destruir essa torre de marfim, eis a verdadeira iconoclastia. Se o senhor Min Wang fosse mais adiantado no zen, teria, sem dúvida, manifestado sua decepção de não ter compreendido o ensinamento do mestre, ainda que ele tenha captado perfeitamente a mensagem silenciosa de Lo Chan.

O crescimento de um mosteiro é tão lento e invisível quanto o das árvores e arbustos que o cercam. O mestre, os monges e os doadores plantam suas sementes mas não vêem a floração final. Porque não se alegrar simplesmente dedicando o dia presente à meditação? Tal é o ensinamento de Lo Chan, herdeiro do Buda, através de gerações de discípulos.

Quando dei meus primeiros passos nesta modesta sala, não havia nenhuma imagem de Buda, nenhum móvel, exceto um banco de piano. Sentei-me em silêncio naquele banco e juntei minhas mãos, palma contra palma. Aquele foi meu primeiro ensinamento neste zendô, e todos os que se seguiram desde então nada mais foram do que comentários. Se algum de vocês pensa em fazer conferências ou escrever ensaios sobre o zen, que se lembre desta história e que aprenda a dizer "adeus" alegremente.

19 novembro 2007

Hokyo Zanmai

Hokyo Zanmai

O Samadhi do Espelho Precioso

Mestre Tozan (807-869)

Hokyo Zanmai significa o "Samadhi do Espelho Precioso", que quer dizer concentração, neste caso, concentração em zazen. Secreto até bem pouco tempo, o Hokyo Zanmai é um texto essencial.

É preciso conhecer esse texto para tornar-se um monge Soto e de compreendê-lo perfeitamente para tornar-se um Mestre Zen. O Samadhi do Espelho Precioso é o canto da concentração em zazen. O Hokyo Zanmai, como o Sandokai e o Hanna Shingyo são recitados pelos monges todas as manhãs nos templos Soto Zen. Chamam esses três sutras de "a essência secreta do Zen Soto".

Esses sutras são difíceis de apreender e mesmo a maior parte dos monges que os recitam todas as manhãs não conseguem compreendê-lo profundamente. Até mesmo os professores. Um poema ou um canto, sobretudo quando ele é também antigo, é muito difícil de explicá-lo pela gramática ou pela leitura ordinária. O pensamento de Mestre Tozan, desejoso de explicar o espírito do Zen, encontrou-se limitado pelos ideogramas. Ocorre o mesmo hoje em dia para o espírito do Mestre. Devemos ver por detrás de suas palavras, escavar para chegar ao fundo do espírito. E isto através de nossa prática do zazen.

Tozan nasceu em 807 na China, a oeste do Rio Yan Po. É o décimo-primeiro patriarca depois de Bodhidharma. Seu Mestre da transmissão foi Ungan Donjo (782-841). Porque escreveu o Hokyo Zanmai? Graças ao seguinte acaso.

Um dia, durante uma de suas viagens, ele passou por uma ponte. Olhou a água que corria, e compôs o seguinte poema:

"Não procureis o caminho entre os outros

num lugar afastado

o caminho está sob nossos pés.

Agora vou só...

Mas posso reencontrá-lo por toda a parte;

ele agora certamente é eu,

mas eu não sou ele.

Também, quando encontro o que quer que seja,

posso obter a verdadeira liberdade."

Este poema serviu de base ao Hokyo Zanmai, mais particularmante o décimo verso, e tornou-se a fonte deste canto. (Taisen Deshimaru, 1981).

05 novembro 2007

Sandokai - 21º (e último) Comentário de Suzuki

Não há perto nem longe.
A menor dúvida vos colocará
A rios e montanhas de distância dele.
Respeitosamente peço a vós que procurais o caminho,
Não desperdiceis vossos dias e noites em vão.



“Não há perto nem longe”. Isto é muito importante. Quando vocês se envolvem em uma prática egoísta, vocês têm alguma idéia de obter algo. Quando vocês se empenham em atingir um objetivo ou alcançar a iluminação, naturalmente pensarão “Estou longe de meu objetivo”, ou “Estou quase lá”. Mas se vocês praticam de nossa maneira, a iluminação se encontra exatamente onde vocês estão. Isto pode ser um pouco difícil de aceitar. Quando vocês praticam o zazen sem qualquer idéia de obtenção, existe realmente iluminação.

Dogen Zenji explicava que na prática auto-centrada, há iluminação e há prática: prática e iluminação são eventos que encontramos em nossas vidas. Mas quando realizamos prática e iluminação com eventos que aparecem no reino do grande mundo do dharma, então a iluminação é um evento que expressa o mundo do dharma, e a prática também é um evento que expressa o mundo do dharma. Se ambos expressam ou sugerem o grande mundo do dharma, então não necessidade de nos sentirmos desencorajados se não alcançamos a iluminação. Nem deveríamos ficar extremamente felizes se a alcançamos, porque não há diferença. A prática e a iluminação têm o mesmo valor.

Se a iluminação é importante, a prática também é importante. Quando compreendemos este ponto a cada passo, temos iluminação. Mas não haverá necessidade de ficarmos excitados com isso. Passo a passo, continuaremos a prática sem fim, apreciando a bem-aventurança do mundo do dharma. Essa é a prática baseada na iluminação, a prática além do bem e do mal, além da prática auto-centrada.

Em nosso último comentário discuti a afirmativa de Sekito, “Se você não compreende o caminho bem à sua frente, com poderia conhecer a trilha quando anda?” O que quer que vocês vejam, é o dao. Ainda que vocês pratiquem, se não compreendem isto, sua prática não funcionará. Agora ele diz que se vocês praticarem nosso caminho em seu sentido verdadeiro, não haverá nenhum problema em estar longe do objetivo ou quase lá. A prática de um iniciante ou de um grande mestre Zen não são diferentes. Mas se vocês estiverem envolvidos apenas em práticas auto-centradas, será ilusão.

No próximo verso ele nos diz que se praticarem nosso caminho com um sentido dualístico de prática e iluminação, estarão separados do dao por dificuldades tão grandes quanto aquelas de cruzar rios e montanhas.

Então, ele nos diz, “Respeitosamente peço a vós que procurais o caminho, não desperdiceis vossos dias e noites em vão” – Koin munashiku wataru koto nakare. Ko aqui significa “raio de sol” e in significa “sombra”, assim koin quer dizer “noite e dia” ou “tempo”. Wataru significa “gastar” ou “passar”. Nakare, “não”, e munashiku, “em vão”. “Não passar seus dias e noites em vão” significa, “não dêem bobeira”.

Ainda que você trabalhem muito duro às vezes, vocês podem estar gastando seu precioso tempo sem, na realidade, estarem fazendo nada. Se não sabem o que estão fazendo, podemos dizer, “Oh, vocês estão passando seu tempo em vão”. Vocês podem dizer, “Não, estou me empenhando duro para colocar dez mil dólares na minha poupança”, mas para nós isto pode não fazer muito sentido. Ainda que vocês trabalhem muito em Tassajara durante o período trabalho, isto nem sempre quer dizer que vocês estejam fazendo a coisa certa. Se vocês dão bobeira, vocês estão desperdiçando seu tempo e, ainda que trabalhem duramente, pode ser que também estejam desperdiçando seu tempo. Isto é uma espécie de koan para vocês.

“Todo o dia é um bom dia”. Este koan não quer dizer que vocês não devam se queixar caso tenham alguma dificuldade. O que ele quer dizer é “Não desperdicem seu tempo em vão”. Eu acho que a maioria das pessoas desperdiça seu tempo em vão. “Não, estou sempre ocupado”, podem dizer. Mas se dizem isto, é certo que estão gastando seu tempo em vão. A maioria das pessoas faz algo com algum sentimento de finalidade, como se soubessem o que estão fazendo. Mas mesmo assim, não creio que tenham uma compreensão adequada de sua atividade.

Quando vocês fazem algo com uma finalidade baseada em alguma avaliação do que é útil ou inútil, bom ou ruim, mais ou menos valioso, sua compreensão não é perfeita. Se vocês fazem as coisas que precisam ser feitas a despeito de serem os resultados bons ou maus, bem ou mal sucedidos, esta é a prática real. Se fazem as coisas, não por conta de Buda, ou da verdade, ou de vocês mesmos ou de outros, mas pelas próprias coisas, este é o verdadeiro caminho.

Não posso explicar isso muito bem. Talvez não devesse explicar tanto. Vocês não devem fazer as coisas só porque se sintam bem, ou deixá-las de fazer porque se sintam mal. Há algo que devem fazer, quer se sintam bem ou mal. Se não têm esse tipo de sentimento quando fazem algo, ainda não começaram nosso caminho em seu sentido verdadeiro.

Não sei porque estou em Tassajara: não é por vocês ou por mim ou mesmo por Buda ou pelo Budismo. Apenas estou aqui. Mas quando penso que tenho que deixar Tassajara dentro de duas ou três semanas, não me sinto tão bem. Não sei porque. Não creio que seja apenas porque vocês sejam meus alunos. Não tenho nenhuma pessoa em particular a quem eu ame tanto. Não sei porque tenha que estar aqui. Não é porque esteja apegado a Tassajara. Não estou esperando nada no futuro em termos de um grande mosteiro ou do Budismo. Mas não quero viver no ar. Quero estar exatamente aqui. Quero ficar de pé em meus próprios pés.

O único modo de ficar de pé em meus pés quando estou em Tassajara, é sentando. Esta é a razão pela qual estou aqui. Ficar de pé em meus pés e sentar na minha almofada preta são as coisas mais importantes para mim. Não confio em nada a não ser em meus pés e em minha almofada preta. Eles são meus amigos sempre. Meus pés são sempre meus amigos. Quando estou na cama, minha cama é minha amiga; não há nenhum Buda, nenhum Budismo, nenhum zazen. Se vocês me perguntarem “O que é zazen?”, minha resposta será, “sentar na minha almofada preta” ou “caminhar com meus pés”. Ficar neste momento neste lugar é meu zazen. Não há nenhum outro zazen. Quando estou de pé em meus pés, não estou perdido. Para mim, isto é o nirvana. Não há necessidade de viajar, atravessar montanhas ou rios. Estou exatamente aqui no mundo do dharma, então não tenho dificuldades de atravessar montanhas e rios. É assim como não desperdiçamos nosso tempo. Momento a momento, devemos viver exatamente aqui, sem sacrificar este momento pelo futuro.

Na China, ao tempo de Sekito, o Zen Budismo era muito problemático. No fundo de cada ensinamento sempre havia alguma controvérsia. Havia muitas escolas de Zen que se perdiam freqüentemente em disputas. E porque estavam envolvida em idéias de ensinamento certo e errado, ou tradicional ou herético, perdiam o foco principal de sua prática. Por isso Sekito disse, “Não desperdiceis vosso tempo em vão”. Não sacrifiquem a prática real pela prática idealística, tentando atingir algum tipo de perfeição, ou tentando descobrir a compreensão tradicional ensinada pelo Sexto Patriarca.

Os discípulos do Sexto Patriarca compilaram o Sutra do Sexto Patriarca em diversas versões e cada um dizia, “Este é o caminho do Sexto Patriarca. Aqueles que não têm este livro não são descendentes do Sexto Patriarca”. Esse tipo de compreensão do Zen prevalecia durante aquela época. Por isso Sekito disse, “Respeitosamente peço a vós que procurais o caminho, não desperdiceis vossos dias e noites em vão”. Seguir nossa prática da maneira correta é não ser aprisionado por alguma idéia, algum ensinamento ou prática egoísta.

Isso às vezes é chamado de “a prática de polir telha”. Habitualmente as pessoas polem espelhos. Se alguém começa a polir um telha, vocês rirão dele. Mas polir uma telha, a faz brilhar. Alguém pode dizer, “Oh, é apenas uma telha. Não pode ser um espelho”. É a prática daqueles que desistirão facilmente, pensando, “Não posso ser um bom aluno Zen, tenho que desistir de sentar-me em zazen”. Eles não se dão conta de que uma telha é valiosa, às vezes mais valiosa que um espelho. Ninguém pode fazer um telhado com espelhos. Telhas são muito boas para fazer telhados, tanto quanto um espelho é importante para vocês se olharem. Esta é a prática de polir telhas.

Como vocês sabem, há uma história famosa sobre Nangaku, um discípulo do Sexto Patriarca, e Baso, seu aluno. Baso estava praticando zazen, quando Nangaku passou e perguntou, “O que você está fazendo?”.
“Estou praticando zazen.”
“Porque está fazendo isto?”
“A fim de tornar-me um buda.”
“Ah, é muito bonito você tentar tornar-se um buda”, disse Nangaku, que pegou uma telha e começou a poli-la.

Então Baso perguntou, com alguma curiosidade, “O que está fazendo?”
“Quero transformar esta telha em um espelho.”

Seu aluno perguntou se era possível transformar uma telha em um espelho. Nangaku respondeu, “Você disse que fazia zazen para ser um buda, mas um buda nem sempre é alguém que alcança a iluminação. Todo o mundo é buda, quer tenha ou não se iluminado”.
Baso disse, “Quero tornar-me um buda pela prática do sentar”.

Nangaku disse, “Você fala da prática na posição sentada. Mas sentar nem sempre é Zen. O que quer que você faça será zazen”.
Baso ficou perdido. “Então qual seria a prática adequada?”

Nangaku replicou, “Se uma carroça não anda, qual seria o modo adequado de fazê-la andar – golpear a carroça ou golpear o cavalo?” Baso não pôde responder porque ainda estava engajado em praticar para atingir algo.

Então Nangaku continuou com a sua explicação. Não lhes posso contar todos os detalhes, mas, em resumo, o que ele disse foi, “Tentar imaginar o que está certo – chicotear o cavalo ou chicotear a carroça – está errado, porque a carroça e o cavalo não estão separados, eles são uma coisa só”.

A prática e a iluminação são uma coisa só, como a carroça e o cavalo. Assim, quando vocês fazem uma prática física real, isto também é iluminação. Denominamos prática baseada na iluminação “a prática real que não tem fim”, e chamamos iluminação que começa com a prática e é una com a prática, “iluminação sem começo”. Quando alguém começa a praticar, há iluminação, e onde há iluminação, há também prática. Não há iluminação sem prática. Se vocês não permanecem neste ponto realizando sua posição, vocês não estarão praticando nosso caminho. Então estarão desperdiçando seu tempo se vocês estiverem sacrificando sua prática atual por algum alcance futuro. Isto não é prática real.

Sekito também foi um discípulo direto do Sexto Patriarca e conhecia muito bem a prática do Sexto Patriarca. Então, quando Kataku Jinne e seus discípulos começaram a denunciar a escola do Norte de Jinshu, Sekito sentiu-se mal por eles estarem apegados a alguma idéia sem realizar o que fosse a prática. Sua compreensão foi levada ao Japão por Dogen Zenji cinco séculos mais tarde. Dogen estendeu este entendimento, não apenas logicamente, mas mais amplamente, com mais sentimentos e de um modo mais poético, através de sua tenaz mente pensante.

Algumas pessoas dizem que o Sandokai não é um poema tão bom porque é filosófico demais. Pode ser que seja, caso vocês não compreendam o fundo do ensinamento de Sekito e se suas mentes não penetrem suas palavras. Dizemos “ler o verso do papel” – não apenas os caracteres impressos, mas o outro lado da página. É importante que compreendamos o Sandokai de Sekito desta maneira.

28 outubro 2007

Sandokai - 19º (e último) Comentário de Deshimaru


Respeitosamente peço a vós que procurais o caminho,
Não desperdiceis vossos dias e noites em vão.

O que é o Caminho?

Todos os fenômenos que encontramos. Shiki soku ze ku. Isto é a realidade verdadeira. Se não podemos compreender o Caminho pelos fenômenos, ainda que caminhemos bem longe, jamais chegaremos ao caminho. O verdadeiro progresso não depende nem do próximo nem do distante. Quando estamos concentrados na postura, o zazen torna-se eterno, verdadeiro satori. O Caminho não é um objeto externo como, por exemplo, os objetos dos seis sentidos.


O Caminho existe em nosso espírito, não é um objeto. O Caminho existe na fonte de nossa consciência. Quando a fonte de nosso espírito é mal compreendida, existe erro no Caminho verdadeiro. Este ponto é capital.


Se a fonte de nossa consciência se confunde com os objetos que nos cercam, nós nos enganaremos sobre o Caminho. E, ao contrário, se não há erro na fonte da consciência, o Caminho pode realizar-se verdadeiramente.


O Mestre de kendo que é forte espera sem paixão, tranquilamente, de pé, espada sobre os ombros, “como um leão à espreita”. Quando observa seu adversário ou seu parceiro, aquele que é mais fraco não se engana!


Pela prática do zazen tornamo-nos fortes, inconscientemente, naturalmente, automaticamente, sem nenhuma possibilidade de erro sobre as coisas. E devemos compreender que todos os fenômenos tornam-se o Caminho de nossa consciência.


Não compreender é como se encontrar no oceano e pensar que ele está vazio.


Todas as coisas transformam-se no Caminho.


Se duvidardes, não podereis jamais alcançar esse Caminho. Esta compreensão não passa pela inteligência do cérebro frontal. A verdadeira sabedoria está além da inteligência pessoal. A verdadeira sabedoria, nossa intuição, deve ser criada pela condição normal, original, da consciência em zazen. O Zen não faz diferença entre os atos da vida quotidiana e a prática da meditação sentada na postura de Buda.


Como abandonar nossas dualidades, nossas contradições, realizar a unidade?


Como enlaçar as contradições de nosso cérebro e de nossa vida quotidiana?


Como combinar o objeto e o sujeito, a matéria e o espírito, a diferença e a identidade?


É o San Do Kai, a interpenetração do Vazio e dos fenômenos, o Caminho do Zen.