26 fevereiro 2010

COMO SENTAR EM ZAZEN







As roupas devem ser do tipo folgadas, mas bem arrumadas. Em seguida, coloca-se a mão direita no pé esquerdo, e a palma esquerda em cima da palma direita, com as pontas dos polegares se tocando de leve. Sentemo-nos perfeitamente eretos, nem inclinados para a esquerda, nem para a direita, nem para frente, nem para trás. Nossos ouvidos devem estar no mesmo plano que nossos ombros e os nossos narizes alinhados com o umbigo.

Seu cinto ou faixa não devem estar apertados. Na linhagem Sotom a maneira comum de dispor as mãos é com a mão direita debaixo da esquerda. Na linhagem Rinzai e outras, há maneiras ligeiramente diferentes de dispor as mãos. As estátuas de Buda frequentemente mostram a mão esquerda embaixo e a direita em cima. Em resumo, é correto interpretar essas orientações como querendo dizer que devemos posicionar nossas mãos de um modo arrumado e ordeiro.

Sentem-se com a coluna perfeitamente ereta. Não incline sua coluna nem deixe sua cabeça cair. Porque é preciso entrar em tantos detalhes na forma? Perguntem ao Mestre Dogen. Quando seu nariz e o umbigo estão alinhados em linha reta, vocês não estão adernados para nenhum lado.

A língua deve estar colocada contra o céu da boca, e os lábios e dentes firmemente cerrados. Com os olhos continuamente mantidos abertos.

Quando vocês estiverem sentando, mantenham suas bocas fechadas. Não é preciso manter sua língua em nenhuma posição especial, deixem-na em seu lugar natural. Se vocês mantiverem seus olhos abertos, podem precisar piscar muito e também é mais fácil se distraírem. È melhor deixarem seus olhos semiabertos, nem completamente abertos nem fechados.

Há um ponto em que vocês devem tomar muito cuidado. Alguns praticantes ficam querendo concentrar sua energia para que ela flua do topo da cabeça para os quadris. Hoje em dia a palavra “energia” é usada com frequência e as pessoas pensam que elas devem colocar a “energia” em algum lugar em particular. Mas se vocês dirigirem a energia de certo modo, isto significa que a consciência está acompanhando a sua maneira de sentar. Isto quer dizer que a direção de seu zazen está muito diferente da forma indicada por Dogen. Ele disse que a forma verdadeira do zazen é “sem forma”.

Dogen repetidamente detalhou instruções de como sentar ereto, com as costas eretas e a cabeça ereta, sem dirigir a energia para nenhum lugar em particular. Dessa forma é possível respirar mais natural e confortavelmente.
(Quinta parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)

08 fevereiro 2010

COMO SENTAR EM ZAZEN

Geralmente um acolchoado quadrado é colocado no chão onde sentamos, e em cima disso é colocado uma almofada redonda. É possível sentar seja na posição de lótus, ou meio lótus. Na primeira, coloca-se o pé direito na coxa esquerda, e em seguida coloca-se o pé esquerdo na coxa direita. Naquela última, apenas se coloca o pé esquerdo na coxa direita.

Aqui se iniciam as instruções detalhadas de como sentarmos. Nós nos sentamos numa almofada redonda, que chamamos de zafu. Usamos isto para que nossas pernas não comecem a doer. Quando se sentarem no zafu, por favor, façam-no com as costas eretas.

O meio lótus é a metade do lótus completo, por isto só elevamos a perna esquerda. Mas não é preciso agarrar-se a esta forma. Se as suas pernas começarem a doer, não há problema em trocar e colocar a o pé direito na coxa esquerda. Também não há problema em sentar-se como as mulheres frequentemente se sentam no Japão, com os pés dobrados sob elas. Ou usar vários tipos de assentos ou bancos. De qualquer modo, não se preocupem muito com a forma exterior. Eu gostaria apenas que encontrassem uma posição na qual se sentissem confortáveis sentando por um longo tempo, sem que sentissem muitas dores nas suas pernas.

Em alguns dos maiores mosteiros no Japão, se um monge não consegue sentar-se em zazen em lótus completo, não se permite que ele lá permaneça. Em anos recentes, percebeu-se que isto era um erro e, lentamente, as coisas começaram a mudar. Eu acho que isso é bom.

Além do Fukanzazengi e o Gakudo-yojinshu (Pontos a observar na prática do Caminho), Dogen escreveu uma peça chamada o Fushuko-hampo (Regras para comer no mosteiro), que explica em detalhes o modo de comer. Ele também escreveu o Eihei-shingi (Regras para a vida monástica), que descreve em detalhes a maneira de escovar os dentes, lavar a boca, a cara e, até mesmo, como usar o banheiro. Com frequência, ouvimos pessoas que pensam que a prática budista implica em seguir fielmente as regras prescritas por Dogen. Esta é uma grande interpretação errônea. Isto é um modo de praticar estreito, militarista. Há, talvez entre nós, pessoas que pensam que a prática significa aderir estritamente à forma, sem qualquer desvio que seja. Elas podem gostar de fazer isto dessa forma e pensar que não pode ser feito de qualquer outro modo. Eu gostaria que vocês compreendessem, entretanto, que isto está ocorrendo num contexto onde o verdadeiro zazen e o verdadeiro Dharma desapareceram. Por esta razão, apenas a forma é enfatizada e rigidamente seguida.

Se há entre nós quem esteja planejando construir uma sala de meditação e treinar monges no futuro, penso que seria uma boa ideia manterem em suas mãos para referência o Fukanzazengi, o Gakudo-yojinshu e o Eihei-shingi. Aqueles entre vocês que experimentaram vida em grupo estão cientes da necessidade de regras. Antigos praticantes estão familiarizados com as regras do zendo e podem se mover e agir livremente sem que se sintam presos a regras. Sem regras, a vida em grupo torna-se desordenada. Por favor, entendam, então, que as regras são necessárias para a vida em grupo.
(Quarta parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)

28 janeiro 2010

COMO SENTAR EM ZAZEN

Deixando tudo de lado, não pensemos nem no bem nem no mal, nem no certo, nem no errado. Não interfiramos no funcionamento da mente, nem tentemos controlar os movimentos de nossos pensamentos. Desistamos mesmo da ideia de nos tornar Buda.

Isto é o aspecto que denominamos “discriminação”. Paixões ilusórias, pensamentos ilusórios, bom e ruim, certo e errado – deixemos as coisas fluírem como-elas-são. “Não interfiramos no funcionamento da mente” significa não nos ocuparmos de nossos pensamentos, que correspondem ao funcionamento essencial da mente. Isto é confiar-se a essas funções como-elas-são , sem trazer à tona o eu-ego.

O Zen é o estudo da mente. Quando a mente não é perturbada, quando a mente está pacificada, então não há necessidade da prática do zazen. Essencialmente, a mente está sempre se movendo. Esta atividade é a função da mente. Isto quer dizer que é um grande erro uma pessoa tentar, por meio de pensamentos, parar o movimento essencial da mente. Não há razão para pensar que possamos deixar a mente funcionar como se fosse uma árvore ou uma rocha. A instrução que recebemos aqui é no sentido de deixarmos a mente funcionar como-ela-é, que é necessário deixá-la mover-se continuamente.

Frequentemente se diz que quando não estamos doentes, não necessitamos de remédios. Se tomarmos remédios quando não estamos doentes, eles poderão, ao contrário, fazer-nos mal. Como tenho dito muitas vezes, zazen é o resultado final. É a condição na qual todas as coisas se foram completamente. Nesta condição o eu-ego foi totalmente extinto, então não há necessidade de nos tornarmos mais livres. Não há absolutamente nenhuma necessidade em nos preocuparmos em procurar uma maneira de esquecer o ego.

Podemos pensar “o funcionamento da mente” como se referindo a três diferentes funções da mente: cuidado e atenção, cansaço e padecimento. “Os movimentos de nossos pensamentos” significa o surgimento de um pensamento, seguido por outros pensamentos que vão se empilhando um em cima do outro. Um dos caracteres chineses que empregamos para pensamento em japonês é na realidade composto por dois componentes: o caractere para “objeto” em cima, e o para “mente”, embaixo.
(Terceira parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)

09 janeiro 2010

COMO SENTAR EM ZAZEN

"... deixando de lado todo relacionamento delusivo".

A partir deste ponto começa a explicação da atitude interior para sentarmo-nos. Isto é muito importante. “Deixando de lado todo relacionamento delusivo” quer dizer ser sempre unos com as coisas que estão separadas de nós. Quando vocês estão em unidade como elas, as outras coisas nunca serão uma fonte de ansiedade ou preocupação. As coisas são o que vocês refletem: sendo uno com o que é ouvido, sendo uno com o que é pensado. Isto quer dizer que vocês ao serão envolvidos ou sacudidos pelas circunstâncias.

Se este ponto for mal compreendido, vocês construirão um muro alto entre vocês e as outras coisas. Isto seria um grande erro. Sempre sejam a coisa como-ela-é, e ainda assim não se percam. Enquanto vocês forem unos com as coisas, o Eu estará definitivamente presente. Isto ocorre quando vocês deixam de lado todos os relacionamentos delusivos.
Os ramos do salgueiro são macios e flexíveis. Eles se inclinam com o vento. O seguinte poema foi escrito por alguém que observava um salgueiro.

Mesmo submetido a um vento que não aprecia,
Um salgueiro continua a ser
um salgueiro.

Esta certamente não é uma condição para que vocês se transformem em imbecis ou se tornem uma árvore ou uma rocha. Ela é uma condição que diz que onde quer que vocês estejam alertas, estarão ao mesmo tempo livres para navegar por conta de qualquer vento ou situação. Eu gostaria que vocês compreendessem que o objetivo do Zen é, tão bem expressa pela natureza fluida do salgueiro, uma mente verdadeiramente suave e flexível.
(Segunda parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)

27 dezembro 2009

COMO SENTAR EM ZAZEN



Ao fazermos zazen, é desejável que tenhamos um quarto calmo. Devemos ser moderados no comer e beber.

O texto do Fukanzazengi visto até agora é basicamente um prefácio. De agora em diante, chegamos ao núcleo real do zazen. Em resumo, zazen não é um meio. Uma vez que já é o resultado, zazen é a condição onde corpo e mente caíram. Como o zazen é o resultado final, eu gostaria que vocês compreendessem que, no caso do Zen, não se trata de fazer algo daqui em diante. Causa e efeito são simultâneos. Por favor, entendam que o zazen não é um meio de atingir algo – ele é o resultado final. O problema é que enquanto estamos exatamente no meio do resultado, nós não podemos verificá-lo como sendo nosso. Por esta razão, ainda que sejamos o próprio resultado, nós vamos buscar outro resultado. Isto não está de acordo com o Dharma. No entanto, o hábito de buscar resultados nos é trazido pelo funcionamento do eu-ego. Por isto é que preciso esquecer este eu-ego.

Porque não podemos verificar diretamente o resultado como-ele-é? Eu gostaria de lembrar-lhes que isto é devido à ignorância “sem começo”. Esta ignorância é algo que todos os budas do passado certamente possuíram, incluindo o Buda Xaquiamuni e Bodhidharma. Ninguém nasce um buda. Eu gostaria de enfatizar isso. Xaquiamuni, antes de realizar a unicidade com a estrela da manhã, vivia numa condição de ilusão e ignorância, tal como nós agora. Sua mente não estava em paz e ele estava no meio de um grande conflito do qual não conseguia se libertar. Ele estava exatamente na mesma situação difícil em que nos encontramos agora.

É melhor praticar o zazen num lugar tão quieto quanto possível. Aqueles que são novatos no zazen estão particularmente vulneráveis a distrações que vêm de fora. Por esta razão, escolham um lugar com tão poucas distrações quanto possível. Também comam e bebam moderadamente – muita comida fará com que nos sintamos sonolentos.
(Primeira parte do 3º Comentário de Harada sobre o Fukanzazengi)