08 julho 2007

Sandokai - 16º Comentário de Deshimaru (cont.)

Um filho costumava acompanhar seu pai à pesca. Um dia, quando os dois estavam pescando, um peixe grande fisgou o anzol. Arrastado pela força que o peixe imprimia sobre o caniço de bambu, o pai caiu no mar. O filho pensou, “O que devo fazer? – devo ajudar meu pai... Ele certamente me diria que devo pescar até a minha morte e continuar seu karma...” Rápido, ele escondeu-se com o barco. Entrou num convento de eremitas escondido na montanha e virou monge. Mais tarde, tornado um grande Mestre, viu, uma noite, seu pai perto dele e lhe falando ao ouvido. “No momento exato que você não me retirou da água, meu karma mudou. Agora estou no paraíso e faço sampai para você”.

Observando apenas um lado, não podemos compreender, mas se considerarmos essa história à luz da fonte do espírito, ela torna-se exemplar.

No Japão antigo, alguns grandes monges faziam os transportes de dinheiro do templo de Eihei-ji. Um ladrão se pôs a segui-los, na esperança de apropriar de um grande butim. Uma noite, enquanto o tesoureiro dormia, ele entrou com passos de gato no quarto onde se encontravam o monge e o dinheiro. Abriu muito suavemente a porta e deu uma espiada no quarto antes de entrar. Ninguém. A claridade da lua inundava o quarto. Solitário, no centro da peça, um ramo de pinheiro. O ladrão, espantado, se disse, “Porque este quarto está vazio? O monge não saiu. Deveria estar aí. Eu o vi entrar no exato momento”. Recomeçou várias vezes suas artimanhas, mas, no quarto vazio, a lua iluminava sempre o ramo de pinheiro. Não ousava entrar. Decidiu-se finalmente e nada encontrou, dinheiro nenhum, apenas o ramo de pinheiro. Pensou que aquele monge possuísse um poder mágico que lhe permitia transformar-se em ramo de pinheiro, e que este poder era muito mais importante que o dinheiro porque lhe permitiria escapar da polícia. “Tenho que aprender este poder”. E, manhã alta, voltou ao quarto. Ali encontrou o monge. O ramo havia desaparecido. À sua pergunta “Onde você estava na noite passada?”, o monge respondeu, “Mas eu estava aqui! Fazia zazen, e não possuo nenhum poder mágico!” O ladrão lhe perguntou se podia lhe mostrar como fazer zazen e o monge lhe ensinou a postura.

Não devemos sofrer a influência das ações dos outros. É de nós mesmos que devemos extrair a essência.

“Saibamos apenas que quando escutamos um Mestre do Zen, não é preciso, ao escutá-lo, aduzir suas instruções às nossas concepções pessoais. Aquele que assim fizer não poderá apreender as instruções do Mestre. Quando consultamos um Mestre para nos informar sobre a lei, ele nos faz purificar o corpo e o espírito, acalmar a vista e o ouvido. Nada a fazer a não ser escutar as instruções do Mestre, sem aí misturar qualquer pensamento. O corpo e o espírito devem ser um e o mesmo que aquele do Mestre, como a água que vertemos de um vaso a outro. Apenas aquele que se tornar assim, poderá recolher o ensinamento do Mestre” (Dogen, Gakudo jin shu). Apenas tal discípulo será admitido no shiho.

O sutra do nirvana fala de um certo rei que só dizia sempre uma só palavra a seu aio: “Sandabbah” ou Arê em japonês: “Isto!”. Sandabbah para o sal, para as frutas, para a água, para selar o cavalo. Durante sua refeição o rei ordenava: “Sandabbah!” e o aio lhe trazia o sal. Sandabbah! O aio lhe apresentava as frutas. Sandabbah! Água fresca era vertida em seu copo. Sandabbah! E seu puro sangue era selado. A linguagem do rei e os tos de seu aio se encaixavam sempre perfeitamente. Sandabbah! Se o aio trouxesse o cavalo à mesa, grande erro! Ele compreendia por intuição. A educação Zen é a mesma coisa. O ponto final, shiho, significa a unidade do sangue do discípulo e do Mestre. Apenas o silêncio e, neste instante, tudo pode se transmitir.

02 julho 2007

Sandokai - 16º Comentário de Deshimaru

O absoluto funciona junto com o relativo,
Como duas flechas se encontrando no meio do ar.
Recebendo estas palavras, deveis
Compreender a grande realidade.
Não julgueis por quaisquer padrões.


É preciso tocar diretamente o espírito do Buda. Como tocá-lo? Nele entrando, diretamente! Pelo zazen! Buda fazia zazen sob a árvore Bo. Ele se despertou. Satori. Ele transmitiu a Mahakashyapa a essência e o método desse satori.

E, em seguida, esta transmissão foi efetuada de Mestre a discípulo praticando o zazen. Um discípulo que faz zazen tem em si a capacidade e a possibilidade do despertar.

Ao ler um sutra é preciso compreender seu sentido, não depender das palavras. I shin den shin!

Também é uma transmissão secreta do espírito do Mestre ao do discípulo: “a transmissão secreta do Zen”.

Apenas entre duas pessoas: o Mestre e o discípulo. Nenhuma outra pessoa pode intervir. Segredo absoluto, direto, inexplicável pelas palavras e pela linguagem. Transmissão simbolizada, confirmada pelo kesa, pela tigela ou por um certificado.

Um discípulo não poderá mudar esse segredo segundo suas próprias idéias. Ele deverá, à sua vez, retransmiti-lo à geração seguinte. Como a chama de um archote que passa de mão em mão. Tal é a essência do Buda que foi transmitida até mim. Esses versos são os versos maiores do Sandokai. Pode-se dizer que eles aí introduzem a conclusão.

Duas flechas se encontrando em pleno ar, uma metáfora chinesa. É a história de Kisho e Hiei, à qual também faz referência o Hokyo Zanmai. As pontas das flechas se encontram. A caixa e sua tampa se ajustam perfeitamente.

Prática e princípio se ajustam da mesma forma. Substância e ação, escuridão e luz, fonte e afluentes, unidade e diferenças, ku e shiki se encontram, coincidem e se penetram mutuamente. A caixa, a tampa, as duas são necessárias.

A utilidade e posição de cada termo são diferentes. Mas quando os dois se ajustam perfeitamente, o equilíbrio se realiza. Entre homem e mulher, por exemplo. O sexo do homem e o da mulher são opostos. Um penetra, o outro recebe. Mas para realizar sua utilidade, eles devem se encaixar, coincidir perfeitamente. E, por este ato, a utilidade do ser humano se realiza. É a unidade, não apenas um lado nem o outro, mas os dois em um. Do mesmo modo, além do pensamento e do não pensamento, Hishiryo.

Não devemos apegar-nos à superfície das palavras, mas compreender a fonte, o sentido profundo, a grande realidade.

Um Mestre Zen, encolerizado com seu discípulo, diz-lhe: “Deves sair! Não! Não pela porta! Não! Não pela janela!” Por onde? É um koan! Outro exemplo:

Mestre Obaku tornou-se célebre e sua velha mãe cega desejava encontrá-lo. Obaku viajava a maior parte do tempo. A mãe esperava seu filho perto de um barco, prestando alguns serviços às pessoas que por lá passavam, e emitindo os bilhetes do barco. Também fazia massagens nas pessoas cujos pés e tornozelos estavam doloridos. Esperava, assim, reencontrar seu filho um dia. Os pés de Obaku tinham cicatrizes características. Obaku chegou à margem do rio. A mãe, por intuição, agarrou o pé de seu filho e o reconheceu. “Diz-me o teu nome, penso que sou sua mãe... Tu és Mestre Obaku...” Ele passou sem responder, mas um passante advertiu a mãe de que aquele homem era mesmo o Mestre Obaku. Ela correu até ele, tentando alcançá-lo antes que o barco partisse. Mas o barco já havia começado sua travessia e mãe caiu na água ao tentar juntar-se a seu filho. Então Obaku disse, “A família que criou um filho que se tornou um verdadeiro monge, renascerá no céu”. A maioria das pessoas achava que Obaku não era um homem normal, mas um ser um pouco louco. Obaku, entretanto, tinha visto sua mãe subir ao céu naquele exato instante. A atitude de Obaku parece estranha, mas é preciso compreender a fonte de suas ações e de sua história. Ele ensinou como um grande mestre pode educar sua família no caminho da realização do satori. É o ponto escondido, obscuro... (continua).

24 junho 2007

Sandokai - 17º Comentário de Suzuki (cont.)

Anso wo motte o koto nakare – “mas não tome isto como escuridão”. Nakare significa “não”. Motte significa “com”. Anso significa “lado escuro” ou “perspectiva escura”. O caractere o significa “encontrar”, no sentido de tratar a pessoa que você encontra como amiga. Você encontra o modo como as nuvens encontram uma montanha. Aqui está a montanha Tassajara, há nuvens, e as nuvens oriundas do oceano encontrarão a montanha. Este tipo de relação é o. Você não deveria encontrar pessoas simplesmente com a compreensão da escuridão. Se você encontrar seu amigo com seus olhos fechados, ignorando quão velho ou elegante ele é, ignorando todas as suas características, você não encontrará seu amigo. É apenas uma compreensão unilateral, porque na escuridão há luz. Mesmo que a relação entre você e seu amigo seja muito íntima, ainda assim seu amigo é quem ele é, e você é você. Talvez a relação seja como a de marido e mulher. Marido é marido e mulher é mulher. Esta é uma relação real. Não encontre seu amigo sem a compreensão de luz ou dualidade. Uma relação estreita é escura porque, se sua relação é muito íntima, você é um com a outra pessoa. Mas ainda assim você é você e seu amigo é quem é.

O terceiro e o quarto versos são semelhantes ao primeiro e segundo. Eles dizem a mesma coisa que o primeiro e o segundo, mas de um modo diferente. “Dentro da escuridão há luz, mas não procure por esta luz”. Na escuridão, ainda que estejamos em uma relação íntima, há a dualidade de homem e mulher. Esta dualidade é a luz. Max você não deveria ver os outros com os olhos da luz apenas, porque o outro lado da luz é a escuridão. A escuridão e a luz são as duas faces de uma moeda.

Somos suscetíveis de ser dominados por idéias preconcebidas. Quando você tem uma má experiência com alguém, você pode pensar, “Oh, ele é uma má pessoa, sempre é mesquinho comigo”. Mas pode não ser assim. Você o está vendo com os olhos da luz apenas. Você deveria saber por que ele é mesquinho com você. Como a relação é tão estreita, tão íntima, ela é mais que uma relação entre duas pessoas. É apenas um. Então, quando ele está zangado, você estará zangado. Quando um está zangado, o outro ficará zangado. Você precisa entender o outro lado da luz que é a escuridão. Então, mesmo que você fique zangado, você não se sentirá tão mal. “Oh, ele está zangado comigo porque somos muito íntimos”. Quando você pensa que ele é mau, lhe é difícil mudar de idéia. Pode ser verdade que ele às vezes é mau, mas exatamente agora você não sabe se ele é bom ou mau. Você tem que ver.

Não nos devemos prender à idéia de escuridão ou luz. Não nos devemos prender à idéia de igualdade ou diferenciação. A maior parte das pessoas quando têm má vontade com alguém acha quase impossível mudar seu sentimento. Mas se somos budistas, devemos ser capazes de mudar nossas mentes de mau para bom e de bom para mau. Se você é capaz disto, “mau” não significa mau, e “bom” não mais significa bom. Mas ao mesmo tempo bom é bom e mau é mau. Compreende? Devemos entender a relação entre nós desta maneira. Eis um poema:
A mãe é a montanha azul
e as crianças são nuvens brancas.
Todo o dia estão juntas
e, no entanto, não sabem
quem é a mãe e quem são as crianças.
A montanha é a montanha e as nuvens brancas são nuvens brancas que flutuam em torno da montanha como crianças. Há a montanha azul e há as nuvens brancas, mas elas não sabem que existem nuvens brancas ou montanhas azuis. Ainda que não saibam, sabem muito bem – tão bem que não sabem.

Essa é a experiência que você terá na sua prática do zazen. Você ouvirá insetos e o córrego. Você está sentando, o córrego correndo, e você o ouve. Mesmo que você o ouça, você não tem nenhuma idéia de córrego e nenhuma idéia de zazen. Você está apenas na almofada negra. Você está ali simplesmente como uma montanha azul com nuvens brancas. Este tipo de relação é completamente esclarecido nesses quatro versos do Sandokai.

10 junho 2007

Dentro da luz, há escuridão


Sandokai - 17º Comentário de Suzuki

Dentro da luz, há escuridão,
Mas não tente entender essa escuridão.
Dentro da escuridão, há luz,
Mas não procure por essa luz.


Em primeiro lugar, falarei sobre os dois termos mei e an, “luz” e “escuridão”. A luz significa o mundo relativo, dualístico, das palavras, o mundo pensante, o mundo visível no qual vivemos. A escuridão refere-se ao absoluto, onde não há valor de troca ou valor materialista ou mesmo valor espiritual – o mundo que nossas palavras e nossa mente pensante não podem alcançar. Ao vivermos no reino da dualidade, devemos ter uma boa compreensão do absoluto, do qual podemos pensar como uma divindade. Mas no Budismo nós não temos qualquer idéia particular sobre uma divindade. O absoluto é o absoluto porque está além do nosso pensamento intelectual ou dualístico. Não podemos negar este mundo do absoluto. Muitas pessoas dizem que o Budismo é ateísmo porque não temos nenhuma idéia particular de Deus. Sabemos que há o absoluto, mas sabemos que está além dos limites de nossa mente pensante, e assim não temos muito que dizer sobre isto. É o que queremos dizer com an, “escuridão”.

Meichu ni attate an ari – “Dentro da luz há escuridão”. Isto é uma tradução literal. Mas a tradução literal não faz muito sentido. Assim devemos compreender o significado de ari, “há”. Há dois caracteres para “há” em japonês: ari e zai. Quando dizemos que há algo sobre a mesa, na Terra ou en Tassajara – algo sobre ou em alguma coisa- usamos “zai”, e quando dizemos, “Tenho duas mãos, usamos “ari”. Na realidade, dizemos, “Há duas mãos”, ou, “Há duas mãos em você”. Parte do caractere para “ari”, significa “carne” ou “pele”. Isto mostra uma relação muito estreita entre luz e escuridão, como a relação entre minha pele e eu. A frase, “Dentro da luz há escuridão”, soa mais dualística. “Tenho minha pele”, você pode dizer, ou, “Tenho minha mão”. Mas sua mão ou sua pele são partes de você, desta forma, na realidade, não é dualístico. Pele é você mesmo. Suas mãos são suas mãos. Dizemos, “Tenho duas mãos”. Mas suas mãos podem achar graça quando você diz isto. “Oh! Somos parte de você e ainda assim você diz que tem duas mãos. O que você quer dizer com isso? Quer dizer que você tem mais duas mãos além de nós?” Se possível, acho que deveria haver uma outra maneira de expressar isto em português.

Nesses versos ari quer dizer que há uma relação muito estreita entre luz e escuridão. E, na realidade, a própria escuridão é luz. A escuridão ou a claridade está dentro de sua mente. Na sua mente, você tem algum padrão ou medida de quão claro ou escuro está esta sala. Se estiver estranhamente clara, você pode dizer que a sala está clara; se estiver estranhamente escura, pode dizer que está escura. Mas você pode dizer, “Esta sala está clara” e, ao mesmo tempo, uma outra pessoa dizer, “Esta sala está muito escura”. Alguém que chega de São Francisco à noite pode dizer, “Tassajara é muito escura”. Mas alguém que chega aqui de uma caverna pode dizer, “Tassajara é muito clara, como uma grande cidade”. A idéia de luz ou escuridão está dentro de nós mesmos. Porque temos algum padrão, dizemos luz ou escuridão, mas realmente luz é escuridão e escuridão é luz.

Mesmo que digamos “escuridão”, isto não significa que não haja nada ali. Podemos ver muitas coisas quando há luz, como brancos e japoneses, homens e mulheres, pedras e árvores. Essas coisas aparecem na luz. Quando dizemos “escuridão” ou “mundo do absoluto”, que está além de nosso pensamento, você pode pensar que seja um mundo bastante diferente do nosso mundo humano, mas isto também é um erro. Se você compreende escuridão desta maneira, não é a escuridão de que estamos tratando aqui.

Alguns de vocês estão preparando comida para o casamento de Ed e Meg. Você pode arrumar as comidas separadamente, colocando-as em pratos diferentes. Isto é sopa, isto é salada, isto é sobremesa. É a luz. Mas quando você comer, as várias comidas se misturarão na sua barriga. Aí não há nenhuma sopa, nenhum pão, nenhuma sobremesa. Naquele momento todos funcionam juntos. Quando os vários itens estão nos pratos, eles não estão funcionando, desta forma não são realmente alimentos, é luz. Quando estão na sua barriga, é escuridão. Mas mesmo na escuridão, ainda há alface e sopa e tudo o mais. A comida é a mesma, apenas quando troca a sua forma começa a funcionar. As coisas acontecem deste jeito na escuridão profunda. Você se sente bem na luz, você sente como se tivesse um prato especial à sua frente, mas a comida ainda não está atingindo sua finalidade.

Quando você não sabe o que está fazendo, na realidade está agindo completamente, com uma mente cheia. Quando você está pensando, você ainda não está funcionando. Quando você começa a funcionar, tanto o lado escuro quanto o lado claro estão presentes. Quando você está realmente praticando o caminho budista, há um lado escuro e um lado claro, e a relação entre a luz e a escuridão é essa relação ari, como a relação entre sua pele e seu corpo. Você não pode realmente dizer o que é pele e o que é corpo. (continua)

03 junho 2007

Sandokai - 15º Comentário de Deshimaru

Cada existência tem sua utilidade,
Use-a qualquer que seja sua posição.
Fenômeno e essência encaixam-se perfeitamente.

A substância é a luz, a ação, a escuridão. A fonte do espírito do Buda transforma-se em ação. A substância transforma-se em ação, como a elevada montanha torna-se oceano profundo.
A fonte é uma, mas os rios são numerosos: águas claras, águas barrentas, águas calmas, águas agitadas.... ku soku ze shiki...
Ku é a fonte, mas os fenômenos aparecem aos montes, e ku torna-se shiki.
A fonte do espírito de Bodhidarma é um, mas, para seus discípulos, ela se fez pele, músculos, ossos e medula...

28 maio 2007

Shoji soku nehan

Perguntaram ao mestre Luhan Shuren:
- O que é o nirvana?
O mestre respondeu:
- O samsara.
- Mas o que é o samsara?
O mestre disse:
- O que é que eu acabo de te dizer?

27 maio 2007

Sandokai - 16º Comentário de Suzuki (cont.)

Diz Dogen Zenji, “Se não há rio, não há barco”. Mesmo que exista um barco, não será um barco. Um barco pode tornar-se um barco porque há um rio. Habitualmente, porque as pessoas compreendem as coisas de apenas um modo, elas se tornam apegadas ao mundo objetivo ou a algo que elas vêem. Sua compreensão é de que algo existe independente delas. Esta é nossa maneira habitual de compreensão. “Aqui há algo muito doce para comer”. Mas bolo se torna bolo porque queremos comê-lo. Por isso fazemos um bolo. Não há bolo sem nós. Quando compreendemos as coisas desta maneira, estamos vendo bolo, mas não estamos vendo bolo. Isto é cumprir os preceitos.

Talvez você mate algum bicho ou inseto. Mas quando você pensa, “Há muitas lacraias aqui e elas são insetos daninhos, tenho que matar esta aqui”, você está compreendendo as coisa apenas de uma maneira dualística. Na realidade, as lacraias e os seres humanos são um. Não são diferentes. É impossível matar uma lacraia. Mesmo que você pense a matamos, não a matamos. Ainda que você esmague a lacraia, ela continua viva. Aquela forma momentânea pode esvanecer, mas enquanto o mundo inteiro, incluindo nós mesmos, existir, não podemos matar uma lacraia. Quando atingimos esta compreensão, podemos cumprir completamente nossos preceitos.

Mas mesmo assim, não devemos matar qualquer coisa sem razão nem matarmos inventando uma razão de conveniência. “Devo matar lacraias porque elas comem vegetais”. “Nada há de errado em matar animais, por isso mato lacraias”. Não é nosso caminho matar animais com desculpas de raciocínio. Na realidade, quando você mata um animal, você não se sente tão bem. Isto também está incluído no nosso entendimento: “Tenho que matar ainda que não me sinta bem com isto. Ainda tenho que matar um animal mesmo que não seja possível”. As coisas andam dessa maneira no grande mundo.

Não é maneira de guardar os preceitos apegar-se a alguma idéia de matar ou não matar, ou a alguma razão para matar ou não matar. O modo correto de guardar os preceitos é ter uma compreensão completa da realidade. É como você não mata. Compreendem? Como você compreende minha palestra, como você pratica o zazen, é como você não mata. Em outras palavras, você não deve viver no mundo da dualidade apenas. Você pode observar o mundo do ponto de vista dualístico e do ponto de vista do absoluto. “Não é bom matar” é o ponto de vista dualístico. “Ainda que você pense que matou, você não matou” é o ponto de vista absoluto. Mesmo que você viole seus preceitos, se depois de fazê-lo você se arrepende, se você diz “Desculpe-me” para a lacraia, é o modo de Buda. Deste modo sua prática continuará. Você pode pensar que se há preceitos você deveria observá-los literalmente ou você não pode ser budista. Mas se você se sente bem apenas porque você observa algum preceito, isto tampouco é caminho. Desculparmo-nos quando matamos um animal está incluído nos nossos preceitos. Todos estão envolvidos neste tipo de atividade. Mas o modo como fazemos e o sentimento que temos pode não ser o mesmo para todos. Uma pessoa não tem nenhuma idéia de preceitos ou consecução. Uma outra está tentando sentir-se bem através da atividade religiosa ou pela observação dos preceitos. Isto não é o caminho budista.

O caminho budista, em uma palavra, é jihi, compaixão. Jihi quer dizer encorajar as pessoas quando elas estão se sentindo positivas e também ajudá-las a se livrarem de seu sofrimento. É amor verdadeiro. Não é apenas dando algo ou recebendo algo ou observando os preceitos que nós praticamos nosso caminho. Praticamos nosso caminho com as coisas como elas ocorrem naturalmente, indo com as pessoas, sofrendo com elas, ajudando a aliviar seu sofrimento e encorajando-as a prosseguir. É assim que observamos os preceitos. Vemos algo, mas não vemos algo. Sempre sentimos a unicidade dos mundos objetivo e subjetivo, a unicidade do olho e da forma, a unicidade da língua e do paladar. Deste modo não precisamos nos ligar a algo de uma maneira especial, e não temos que nos sentir especialmente bons em função de nossa prática budista. Quando praticamos desta maneira, somos independentes. É disto que Sekito está falando.

“Mas todas as existências, como as folhas da árvore, são alimentadas pela raiz”. Olhos, nariz, língua, ouvidos, vista, cheiro, gosto e audição, todos são dharmas, e cada dharma está enraizado no absoluto que é a natureza buda. Quando observarmos muitas coisas, devemos olhar além de sua aparência e saber como cada coisa existe. Por causa da raiz, existimos, por causa da natureza buda absoluta, existimos. Ao compreendermos as coisas desta maneira, temos a unicidade.
No Bonmo-kyo, uma escritura importante sobre os preceitos, está dito, “Ver é não ver e não ver é ver”. Comer carne é não comer carne, não comer carne é comer carne. Você compreende os preceitos de uma maneira apenas. Você observa os preceitos ao não comer carne. Mas não comer carne é comer carne. Na realidade, você está comendo carne. Entende? É assim que observamos os preceitos. “Não cometa atos não castos”. Ver uma mulher é não ver uma mulher. Não ver uma mulher é ver uma mulher.

Havia dois monges viajando juntos que chegaram a um rio onde não havia ponte para cruzá-lo. Quando estavam de pé à margem, apareceu uma bela mulher. Um deles atravessou o rio com ela às suas costas. Mais tarde, o outro monge ficou furioso. “Você é um monge! Violou o preceito de não tocar uma mulher. Porque fez isso?” O monge que ajudou a mulher replicou, “Você ainda está carregando a mulher. Eu já a esqueci. Você é quem está violando os preceitos”. Talvez não fosse completamente correto para um monge carregar uma mulher. Mesmo assim, como todos os seres humanos são amigos, devemos ajudá-los mesmo que isto signifique violar um preceito budista. Pensar sobre os preceitos de uma maneira limitada é, na realidade, violar os preceitos. Assim, ver a mulher é não ver a mulher. Quando o monge atravessou o rio com ela nas suas costas, na realidade não a estava ajudando. Compreende? Não ajudá-la, era ajudá-la no sentido verdadeiro.

Quando você se envolve com o sentido dualístico dos preceitos – homem e mulher, monge e leigo – isto é violar os preceitos e é uma compreensão pobre do ensinamento de Buda. Sem qualquer idéia de alcance, sem qualquer idéia de uma prática significativa, simplesmente sentar é o nosso caminho. Nosso zazen é estar completamente envolvido na meditação sentada. E é como observamos nossos preceitos. Às vezes estaremos aborrecidos, às vezes sorriremos. Às vezes estaremos enlouquecidos com nossos amigos, às vezes lhes dirigiremos uma palavra gentil. Mas, na realidade, o que estaremos fazendo é apenas observando nosso caminho. Não posso explicar isto tão bem, mas acho que vocês entendem o que quero dizer.

14 maio 2007

Sandokai - 16º Comentário de Suzuki

Para os olhos, há a cor,
Os ouvidos percebem os sons, o nariz, os odores,
A língua diferencia o salgado do doce.
Mas todas as existências, como as folhas da árvore,
São alimentadas pela raiz.

Na minha última palestra, expliquei o sentido da independência de tudo. Embora as coisas sejam interdependentes em relação umas às outras, ao mesmo tempo, cada ser é independente. Quando cada ser inclui o mundo inteiro, cada ser é realmente independente.

Sekito falava sobre a natureza da realidade em um tempo em que a maioria das pessoas, esquecendo tudo sobre este ponto, julgava qual escola do Zen estava certa ou errada. Foi por isto que Sekito escreveu esse poema. Ela falava da realidade a partir do ponto de vista da independência. A escola do Sul é independente e a escola do Norte é independente, e não há nenhuma razão para que devêssemos compará-las para decidir qual é a correta. Ambas as escolas expressam a totalidade do Budismo à sua própria maneira – da mesma maneira que a escola Rinzai tem sua própria abordagem da realidade e a escola Soto tem sua própria abordagem. Sekito Zenji salienta isto. Embora ele se refira à disputa entre as escolas do Norte e do Sul, ele fala ao mesmo tempo sobre a natureza da realidade e sobre o que é o ensinamento budista em seu sentido verdadeiro.

Agora quero explicar esses versos que descrevem a realidade do ponto de vista da independência. “Olho e visão, ouvido e som, nariz e cheiro, língua e paladar”. Parece que Sekito fala dualisticamente sobre a dependência dos olhos em seus objetos. Mas quando você vê algo, você vê em seu sentido verdadeiro de que não há nada para ser visto nem ninguém para ver. Apenas quando você analisa é que há alguém vendo algo e algo que é visto. É uma atividade que pode ser compreendida de duas maneiras. Eu vejo algo, mas na realidade não há ninguém vendo e nada para ser visto. Ambas são verdadeiras. Aqui Sekito fala sobre a unicidade do olho e da forma. È como os budistas observam as coisas. Compreendemos as coisas de um modo dualístico, mas não esquecemos que nossa compreensão é dualística. Eu vejo. Ou alguém ou algo é visto por alguém. São interpretações de sujeito e objeto que nossa mente pensante produz. Sujeito e objeto são um, mas também são dois.

Sekito diz que para os olhos, há forma. Mas ao mesmo tempo não há olhos nem forma. Quando você diz “olhos”, olhos incluem a forma. Quando você diz “forma”, forma inclui os olhos. Se não há forma e nada para ser visto, olhos não são mais olhos. Olhos tornam-se olhos porque há algo para ser visto. O mesmo é verdade para ouvidos, nariz e língua.