11 setembro 2010

Fukanzazengi - 9º comentário de Coupey

Devemos prestar atenção ao fato que mesmo o Buda Shakyamuni praticou zazen durante seis anos.

Essa é a tradução que conhecemos. Na relidade, Mestre Dogen não diz Buda, mas Jetavana. Jetavana era o sobrenome que às vezes se dava a Buda. Era também o nome do mosteiro que lhe deram em Saravasti, na Índia, onde ele pregava com frequencia. Era seu lugar favorito. Diz a história que ele lá teria passado dezenove anos, isto é, dezenove verões, dezenove estações de chuva, praticando zazen com seus discípulos.

Buda nasceu com um espírito desperto. E, apesar disso, desperto ou não, praticou seis anos sob a árvore de Bodhi (alguns dizem seis dias, pouco importa). O que conta é que, se bem que já desperto, isto é, se bem que sua verdadeira natureza já fosse desperta, ele sentou-se em lótus, em total imobilidade, coluna vertebral ereta e praticou zazen não apenas em seis anos, mas durante toda a sua vida. Sentimos ainda sua influência. A prova é que 2500 anos mais tarde, praticamos exatamente a mesma coisa. Cemeçamos e terminamos nossa prática sentados, sob a árvore de Bodhi.

04 setembro 2010

Fukanzazengi - 8º comentário de Coupey


Algumas pessoas ficam orgulhosas de suas compreensões, e acham que estão ricamente agraciadas com a sabedoria do Buda. Crêem que já ganharam o caminho, iluminaram suas mentes, e ganharam o poder de tocar os céus. Crêem que estão perambulando no reino da iluminação. Mas o fato é que quase perderam o caminho absoluto, que está além da iluminação mesma.



Creio não ser necessário comentar essas frases. Mestre Dogen nos fala do espírito de mushotoku - sem objeto. Nada a obter. Nada a obter do zazen. Mais além. Ele aqui evoca as pessoas que só pensam nelas mesmas, que só funcionam a partir de suas próprias lógicas. Todos conhecemos esse tipo de gente, mesmo na sangha, mesmo nós mesmos de tempos em tempos...E, nesse momento, uma grande fenda nos separa do Caminho ou de toda verdadeira prática religiosa.

27 agosto 2010

Hannya Shingyo

Fukanzazengi - 7º comentário de Coupey

O espírito se perde na confusão

É certo que a palavra espírito possui inúmeros significados, mas, para simplifcar, podemos falar do "pequeno" espírito e do "verdadeiro" espírito. O verdadeiro espírito significa o espírito que não se apega a nada, que não corre atrás de seus desejos seguindo seus interesses pessoais, que não foge mais. É tão simplesmente ser na condição normal. Poucas pessoas têm um tal espírito, pois basta ser a favor disso ou contra aquilo para que nosso espírito se perca na confusão.

Em lugar de ser a favor disso ou contra aquilo, observem mais em vocês mesmos. Uma coisa pequenina no começo, uma distância pequenina, e, em seguida, a difereça aparece e torna-se cada vez maior. Todos podemos constatar, mesmo na nossa vida quotidiana, nas nossas relações de casal, por exemplo. Uma coisa torna-se duas, torna-se três, e o céu e a terra se encontram separados por milhões de quilômetros. Essa separação nada mais é do que nosso karma que se levanta e, com ele, os bonno, as ilusões. E, por certo, essas ilusões criam complicações em nosso espírito e o mergulham na confusão. O karma carrega-nos lá para onde estamos. Mas nós não estamos amarrados, aprisionados por esse karma, pois podemos mudá-lo a partir do momento presente.

O espírto não se divide. É preciso ter o espírito amplo, não encerrá-lo numa camisa de força e reduzi-lo a golpes de porretes e de proibições sem fim. Também uma ordenação autêntica de um monge ou de uma monja não comporta nenhuma proibição ou obrigação, pois nada mais é do que a transformação do karma de cada um.

23 agosto 2010

Baikaryu Eisanka

Fukanzazengi - 6º comentário de Coupey

Se manifestarmos a menor preferência ou a menor antipatia, o espírito se perde na confusão.

Quando existe a menor preferência - o menor pensamento de amor - ou a menor antipatia - o menor pensamento de raiva, desprezo - a verdade se esvanece. Ou melhor, como diz Dogen, "o espírito se perde na confusão". Os kanji japoneses para esta frase são shi shu, que quer dizer "perdido", e shin, "espírito". Não é a verdade que é perdida, mas o espírito. Eis aí nosso ensinamento: tanto quanto possível, não percam seus espíritos.

A seu modo de ver as coisas Jinshu expressava "uma pequena qualquer coisa", uma pequena preferência, ou mesmo uma ligeira antipatia pela poeira. O pensamento de Eno quanto a isso era absolutamente perfeito, nada de preferência, nada de antipatia, nada, mu. E a partir do momento em que afirmava que não existia espelho e, portanto, nada a limpar, ele jamais mudou dessa posição, e isso ao longo de toda a sua vida de monge e de mestre. Seu espírito estava exato no começo e, pois, exato no meio e exato no fim.

27 julho 2010


doc Zen soto - I. Ici et Maintenant - 5/5
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Fukanzazengi - 5º Comentário de Coupey



Contudo, o fato é que se houver a menor diferença desde o começo, entre você e o caminho, o resultado será uma separação maior ainda que aquela entre ceú e terra.

Essa frase do Fukanzazengi não é difícil de entender. Se uma distância da espessura de um fio de cabelo é criada, o Si não coincide mais com o ego. Ou buda, Deus, não coincide mais com o eu. A relação entre buda e eu é não-dois – não dois, mas um, e, finalmente, nem mesmo um. No começo a separação entre buda e nosso pequeno ego desaparece, depois não há mais um, não há mais subjetivo, nem sujeito, nem objeto.

É a fé verdadeira. Mas alguns em suas práticas criam uma distância cada vez maior entre buda e eles. Se no início existir uma pequenina diferença, se não se manifesta um autêntico sho shin, espírito do iniciante, em seguida, mil quilômetros separarão buda e eu. Criamos confusão em nosso espírito, criamos um sujeito que criou seu objeto.

Mas isso não quer dizer, ao contrário do que se ouve na religião cristã e às vezes em certas escolas zen, que é preciso se desembaraçar do ego. No livro de um mestre zen que vive hoje em dia nos Estados Unidos, li à repetição que a finalidade de nossa prática consistiria em reduzir o tamanho de nosso ego até que ele desaparecesse. Isto é completamente infantil. Li também um livro sobre a religião cristã que diz a mesma coisa, que é importante se desembaraçar do ego tornando-o cada vez menor.

Gonyo era um dos discípulos de Joshu, um monge muito sério.
Um dia, disse a seu mestre:
- Vim com nada. Que devo fazer em tal situação?
Muitos mestres, naquela época, teriam golpeado o monge, “Paf! Desperte, idiota!” Mas Joshu, que era muito doce, simplesmente respondeu:
- Jogue fora! (este “Jogue fora!” é semelhante ao “nenhum espelho, nenhuma poeira” de Eno).
Gonyo não compreendeu o que queria dizer seu mestre:
- Mas acabo de dizer que vim sem nada! O que quereis que jogue fora?
Joshu, que não pretendia ser malicioso, nem intelectual, e ainda menos brilhante, simplesmente respondeu:
- Nesse caso, jogue fora! Jogue fora tudo isso!

O espírito de Gonyo separava o céu e a terra. Depois de anos e anos de prática ele tinha a impressão de ter conseguido diminuir seu ego, e por isso, dizia a Joshu: “Veja, Mestre, não tenho mais nada!”

Talvez Gonyo quisesse mostrar que havia compreendido alguma coisa: “Mestre, observa-me! Eu também joguei tudo fora, compreendi...” Porém, reconhecer sua própria sabedoria ou compreensão, sua própria natureza de buda, nada mais é do seguir os passos dos outros. O zen não tem traços, odor e, se alguém é “muito zen”, não o é de fato... Dizer “eu nada tenho” ou “tive o satori” é, paradoxalmente, uma posição orgulhosa que obstrui o espírito. Os mestres frequentemente se confrontaram com isso. Um dia, tive uma conversa com alguém que me disse:
- Tive o satori!
- E daí? O que você vai fazer com seu satori?
- Ah, nada...
- Então não precisava tê-lo tido...

Além disso, se pensarmos no tamanho de nosso ego, é melhor tê-lo grande do que pequeno... Mestre Deshimaru frequentemente dizia; “Tenho um super-ego, tão grande quanto o cosmo. Meu ego é o maior do mundo!” Nesse momento, nenhum sujeito, nenhum objeto... É a mesma coisa que Buda diz, “Quando tive o satori, todos os seres tiveram o satori. Comigo, toda a terra despertou.”

O cão de Joshu

Um monge perguntou ao mestre Zen chinês Joshu:
- O cão tem ou não natureza-Buda?
Joshu respondeu:
Mu.
Comentário de Mumon:

Para realizar o Zen, devemos ultrapassar a barreira dos patriarcas. A iluminação sempre surge depois da estrada do pensamento ser bloqueada. Se você não ultrapassar a barreira dos patriarcas ou se a estrada de seu pensamento não estiver bloqueada, o que quer que você pense, o que quer que você faça, será como um fantasma emaranhado. Você pode perguntar, "Qual é a barreira dos patriarcas?" Esta única palavra, Mu, é o que ela é.

Essa é a barreira do Zen. Você verá Joshu face a face se você passar através dela. Então você poderá trabalhar de mãos dadas com toda a linhagem dos patriarcas. Isso não é alguma coisa agradável de ser feita?

Se você quiser vencer essa barreira, você deve fazer penetrar em todos os ossos de seu corpo, em todos os poros de sua pele, esta pergunta: "O que é Mu?" e carregá-la dia e noite. Não creia que é simplesmente o símbolo negativo querendo dizer nada. Não é o nada, oposto da existência. Se você quer realmente vencer essa barreira, você deve sentir como se estivesse bebendo uma bola de ferro quente que você não bode nem engolir nem cuspir.

Então seu conhecimento inferior de antes desaparece. Como um fruto que amadurece na estação, sua objetividade e sua subjetividade tornam-se unas. É como um mudo que teve um sonho. Ele sabe mas não pode contar.

Quando ele penetra nessa condição seu ego-concha é esmagado e ele pode sacudir o céu e mover a terra. Ele é como um grande guerreiro com uma espada afiada. Se um Buda se coloca em seu caminho, ele o abaterá; se um patriarca lhe opõe obstáculo, ele o matará; e ele será livre no seu caminho de nascimento e morte. Ele pode entrar em qualquer mundo como se estivesse em seu próprio pátio de recreio. Eu lhe direi como fazer com esse koan:

Apenas concentre toda a sua energia neste Mu, e não permita nenhuma interrupção. Quando você penetrar este Mu e não houver interrupção, o que você terá alcançado será como vela que arde e ilumina todo o universo.

Tem um cão natureza-Buda?
Esta é a questão mais séria de todas.
Se você disser sim ou não,
Você perde sua própria natureza-Buda.